A temática religiosa tem ocupado lugar de grande importância
em meio à discussões e sua interação, sua relação com as ciências humanas.
Mesmo existindo hoje inúmeras vozes que questionem a possibilidade da
existência de uma sociologia cristã. Porém vale perguntar qual o ponto, o
alicerce que une essas duas temáticas? Será que isso leva a redução da
sociologia a uma ciência puramente racional, desquitada da transcendência e
relativizando-a a dados observacionais de determinado grupo social, ou
afirmaríamos que a relação com o mistério transcendente possui um lugar
destacado em meio a essa divergente discussão.
“O tema da religião é contemporâneo dos
primeiros estudos do campo das Ciências Sociais e é tão presente hoje que se
mantém nos debates não só dessas ciências, como também nas questões políticas
internacionais, fonte de esperanças ou de conflitos entre os homens; fenômeno
que desafia as mais otimistas expectativas trazidas pela globalização e que
muitas vezes, ao contrário de criar pontes, levanta muros, redefinindo mesmo as
fronteiras entre Nações.” (Paula Montero).
Fundamentalmente é preciso entender a sociologia como um
todo, em um todo. Caracteristicamente num todo, tratando de seu objeto de
estudo a sociedade, em meio às relações traçadas pelos indivíduos que a compõe.
Salientando que quando falamos desta relação, mas trata-se de relações baseadas
em crenças politicas, religiosas ou coisa parecida, mas evidenciando os
indivíduos que pensam e por tal motivo existe na relação no contexto do sistema
geral inserido sócio-político, ao qual estão sujeitos.
Com a sociologia descobrimos que todas as sociedades
existentes possuem um ponto de partida, seu marco zero. Não veio de um
cataclismo cósmico, nem mesmo de uma artificial sintetização, tem raízes
profundas, firmadas no seu berço originário. E isto é a ponta do iceberg que
gera a discussão sociológica, pois para entendermos os problemas sociais
enfrentados por um grupo, é necessário detectar a sua origem. “Na verdade toda
uma sociedade possui sua fonte de origem a partir da família, o Microcosmo
Social”.
Tratando-se de religião, como afirma Paula Montero, é um
dos grandes temas fundadores das ciências sociais do século XIX, aprofundando
nas palavras de Émile Durkheim, em sua obra As
formas elementares da vida religiosa, aborda que a religião é a chave que
evidencia a origem social moral e da ideia do sagrado. Entendendo a religião
como fenômeno de procedência social, Durkheim, afirma que a religião nada mais
é do que a própria sociedade se pensando como ente coletivo e abstrato, para
além das particularidades.
As representações criadas pela religião são fontes
primarias a partir da qual se diferenciam todas as outras formas de
conhecimento humano, como por exemplo, a filosofia e a ciência. Tangendo a
referencia com o sagrado, este é a expressão simbólica da própria sociedade e,
portanto, tudo que representa a vida coletiva é objeto de veneração que se ás
coisas profanas. Ou como diria Karl Marx, num tom politizado sobre a religião
ao afirmar que esta é o ópio do povo.
Historicamente, a gênese da modernidade ocidental,
encontra-se situada em meio as grandes e importantes transformações sociais do
século XVIII, o iluminismo, a revolução industrial, a revolução francesa,
momentos históricos essências para redescobrirmos o nascimento de uma nova era,
sob a proteção da reflexão e da racionalidade.
O declínio da crença na religião começa a surgir com o
advir da modernidade. Alavancando um prognostico, ocorreu em diversos campos da
sociedade ocidental, mas estendeu-se, de modo particular ao campo acadêmico,
enformando o conhecimento sociológico emergente. No período do século destas
revoluções ocorreram muitas leituras da realidade, implicando numa oposição
entre a modernidade que traz o individuo como seu ator principal, sendo este
racional, substitui em grande escala o precedente da centralização do cosmo
sagrado, regido este por sua vez, pelas instituições religiosas, a mencionar o
cristianismo, durante muitos séculos, alargando-se no cristianismo e
protestantismo, pela coesão social e cultural e a religião.
O pensamento de que a religião deixa de ser a única a
cuidar da coesão social, assim como o principio de que esta perde seu poderio
monopolista da produção de sentido, começa a tornar comum no contexto social. A
realidade já não se ordena pela tangente do sagrado, fazendo com que a religião
se autonomize num campo social especifico, perdendo seu ascendente sobre os
diferentes níveis sociais modernos, mas mantem mesmo com a decadência
importante influencia e de intercepção com diversos campos.
De certo, com a modernidade surge teses do declínio da
religião ou como alguns preferem atestar a extinção da religião, mas o processo
de secularização, termo este que surge na década de 60, como um termo um
paradigma sociológico, só operacionaliza com o decorrer do século XX, Thomas
Luckmann, um professor de Sociologia na Universidade de Constança na Alemanha.
Desde 1994 é professor emérito. Luckmann tornou-se conhecido por seus livros: A
construção social da realidade, de 1966; A religião invisível de 1967 e
Estruturas do mundo da vida 1982. Introduziu o conceito de diferenciação ou
segmentação institucional. O autor considera que com a modernidade emergiram
subsistemas sociais com um grau de autonomia relativo, e que, deste modo,
também a religião se autonomizou numa esfera social autónoma. Uma das
consequências da segmentação institucional será a privatização da
religiosidade.
Longo processo até chegar à praticidade da religião, que
sem duvidas é de grande valor e importância para a sociedade. Diversos momentos
tensos de embates no campo político, jurídico, social e religioso, para vislumbrara
a beleza do que seria o direito de estado laico. Que no Brasil, o regime
republicano e uma nova Constituição foi promulgada em 1891, rompendo os laços
entre a Igreja e o Estado; ideólogos republicanos, como Benjamin Constant e Rui
Barbosa, foram influenciados pela laicidade da maçonaria francesa. A separação
entre Igreja e Estado promulgada pela Constituição de 1891.
A atual Constituição do Brasil, em vigor desde 1988,
assegura o direito à liberdade religiosa individual de seus cidadãos, e proíbe
o estabelecimento de igrejas estatais e de qualquer relação de
"dependência ou aliança" de autoridades com os líderes religiosos,
com exceção de "colaboração de interesse público, definida por lei." Recordando
da celebre frase de Max Weber de que diz: "Deus é um tipo ideal criado
pelo próprio homem", demonstrando a ânsia por deixar de lado a forte
influência religiosa percebida na Idade Média, período de grande domínio do
cristianismo em diversos campos, ao ponto de implantar sistemas de extermínios
de seres que se atrevesses a contradizer os seus dogmas e doutras – a santa
inquisição – em busca do fortalecimento de um Estado laico. O laicismo teve seu
auge no fim do século XIX e no início do século XX.
Contudo, questiono-me, dentro dos padrões educacionais do
nosso Brasil, dentro das temáticas aplicadas em minha sala de aula, esta um
campo social, onde a diversidade é sempre presente e o respeito deve ser o
alicerce de todo tradado sociológico e religioso, qual a importância da
sociologia para a religião? Para o ensino religioso? Para a pratica social da
religião?
Todas as discursões existentes a cerca da obrigatoriedade
ou não da sociologia e de ensino religioso nas escolas partem, quase sempre no
sentido em perguntar se ambas as disciplinas, mas propriamente o ensino
religioso, é um instrumento doutrinário das religiões, principalmente a
católica, como ocorreu ao longo da historia ou um instrumento de formação dos
nossos alunos, com valores éticos, morais e sociais positivos? Para esta
pergunta a nova LDB nos responde: a segunda opção.
Mais
uma vez recorro a historia, diversas vezes as péssimas sociologias, ou melhor,
os péssimos pensamentos a cerca de um principio sociológico, tem por tradição
querer descartar como inútil, desnecessário a abordagem do ensino religioso e
da sociologia na escola publica, na melhor das piores hipóteses, tentam
coloca-las em segundo plano, sem perceberem que todo esse desenrolar é de certa
forma negativa para o bom andamento da sociedade, pois o retira da proximidade
com o transcendente ancestral que os leva ao um encontro com o outro o convívio
social.
Karl
Marx, pai do agnosticismo, ao escrever a celebre frase: “a religião é o ópio do
povo”, endereçava este pensamento às religiões dominantes de sua época,
comungadoras do poder opressor. Em nenhum momento queria este aniquilar o
fenômeno religioso, mas com toda certeza os homens, as instituições que compõe
o campo religioso, que se apoderavam desse poder simbólico, como afirma
Bordieu, quando ressalta a sua concepção do “campo religioso” pensando estritamente
em termos institucionais, nesse sentido, não consegue atinar para o fato de que
a religião pode preencher uma função social, ou mesmo simplesmente ter uma
realidade qualquer fora da estrutura institucional na qual os interesses dos grupos
são convertidos em interesses religiosos.
Quando
se faz parte dele, participa-se da crença inerente ao fato de se pertencer a um
campo, qualquer que seja ele. A questão da crença religiosa como afirma
Bordieu, esta vinculada ao fato de pertencer ao campo religioso, chamado de illusio, um constante jogo de interesses
e vantagens especificas. Em outras palavras, a sociologia dos determinantes
sociais da pratica sociológica, aparece como único meio de acumular
diferentemente das conciliações fictícias do jogo muitas vezes duplo de
pertencer e de conquistar.
Retomando
Marx, este não deixou de levar em consideração seus estudos sobre o fenômeno
religiosos, escreve juntamente com Engels um livro sobre a religião. Assim como
Marx, Weber e Durkheim debruçou a compreender este fenômeno necessário para a
sociedade, em seus livros “As formas elementares da vida religiosa” (Durkheim)
e o “A ética protestante e o espirito do capitalismo” (Weber), fontes preciosas
de referencias sociológicas escritas até os nossos dias.
Contemporaneamente
encontramos Peter Berger e Pierre Bordieu, este já mencionado, pensadores
sociológicos que evidenciam em seus estudos a importância da proximidade entre
a religião e sociologia. Esta segunda existente não com o objetivo de destruir
a primeira, ou a existência do sagrado, mas auxilia a compreensão de como os
homens se articulam e vivenciam na pratica a dimensão do sagrado em que
acreditam.
É
resultante evidenciar o diálogo travado entre o ensino religioso e a
sociologia, ao longo de muito tempo, a sociologia se preocupa em perceber o
fenômeno religioso, como o fato marcante nas grandes obras fundantes do próprio
pensamento sociológico. As diversas ciências que buscam uma ideal conversação
com a religião, buscam definir precisamente o seu objeto e o seu lugar neste
processo de diálogo social, uma logica de identificação.
Exemplificando
a teologia, como uma das primeiras ciências existentes, pois debruça no
discurso sobre Deus e o relacionar-se com Ele, preocupa-se com a interpretação
da fé. A filosofia por sua vez, mais articulada com a teologia que com a
sociologia, busca ser amante da sabedoria, esta sabedoria que esta em todos os
campos e desta forma aproximando da sociologia, pois estes campos são compostos
de indivíduos que são também fontes destas sabedorias. A história empenha-se na
compreensão histórica dos homens com o trajeto temporal, convivendo com a
religião e as consequências deste convívio.
A
psicologia, com seus artefatos da psique, empenha-se na avaliação das
influencias da fé na formação do intelecto e da personalidade do individuo que
compõe o campo social. A sociologia em relação a religião teria como campo de
atuação a percepção da fé como manifesto na sociedade capaz de observar a
função, a comparação das diversas religiões e o caráter que esta função da
religião tem como material de influência na organização e manutenção da
sociedade. Por sua vez, esta mesma sociologia funciona como sistematizadora do
fenômeno religioso, para uma melhor compreensão e verificação do grau de
influencia na formação e manutenção do grupo social, comunidade.
Por este momento,
poderíamos responder a pergunta feita no inicio: qual
a importância da sociologia para a religião? Para o ensino religioso? Para a
pratica social da religião? Tão somente a sociologia com seu cabedal de teorias
e pensadores, capazes de dar ao educando em sala de aula, e a todo e qualquer
que se debruce a entender esta relação, dando a noção clara de como a sua opção
religiosa, seu estilo de vida dogmático ou outra qualquer que é fator de
composição do cenário atual da nossa sociedade.
Todo grupo, comunidade, sociedades, por mais modernas e
secularizadas que sejam, traz no seu intimo, uma chama que o liga ao imanente,
transcendente, um argumento sagrado. Sem a sociologia e seu olhar peculiar,
difícil é a percepção deste elo com a religião, mesmo sendo este de forma
desestruturada, mas um olhar fundamental e importante para a compreensão da
sociedade, do grupo ao qual o individuo encontra-se inserido e,
concomitantemente, dificulta o individuo no processo de construção do
conhecimento em sala de aula, vislumbrar o valor de sua pratica religiosa na
sociedade, indo além, nublar-se-á para este individuo, membro do corpo social,
a noção de que sua religião pode servir como fator de justiça e igualdade entre
os diversos indivíduos que compõem o quadro social, fator este de transformação
desta sociedade ainda injusta para a construção de uma fraternidade com valores
éticos, voltadas para a valorização desde indivíduos em todo o que compõe.
Referências:
BOURDIEU, Pierre, COISAS DITAS - tradução Cássia R. da
Silveira e Denise Moreno Pegorim; revisão técnica Paula Montero. - São Paulo:
Brasiliense, 2004. Págs. 108 a 125.
Sociologia: ensino
médio / Coordenação Amaury César Moraes. - Brasília: Ministério da Educação,
Secretaria de Educação Básica, 2010. 304 p.: il. (Coleção Explorando o Ensino;
v. 15). Capitulo 6 - Págs. 123 a 138.