sábado, 7 de fevereiro de 2015

SOCIOLOGIA E RELIGIÃO OU RELGIÃO E SOCIOLOGIA

A temática religiosa tem ocupado lugar de grande importância em meio à discussões e sua interação, sua relação com as ciências humanas. Mesmo existindo hoje inúmeras vozes que questionem a possibilidade da existência de uma sociologia cristã. Porém vale perguntar qual o ponto, o alicerce que une essas duas temáticas? Será que isso leva a redução da sociologia a uma ciência puramente racional, desquitada da transcendência e relativizando-a a dados observacionais de determinado grupo social, ou afirmaríamos que a relação com o mistério transcendente possui um lugar destacado em meio a essa divergente discussão.
 “O tema da religião é contemporâneo dos primeiros estudos do campo das Ciências Sociais e é tão presente hoje que se mantém nos debates não só dessas ciências, como também nas questões políticas internacionais, fonte de esperanças ou de conflitos entre os homens; fenômeno que desafia as mais otimistas expectativas trazidas pela globalização e que muitas vezes, ao contrário de criar pontes, levanta muros, redefinindo mesmo as fronteiras entre Nações.” (Paula Montero).
Fundamentalmente é preciso entender a sociologia como um todo, em um todo. Caracteristicamente num todo, tratando de seu objeto de estudo a sociedade, em meio às relações traçadas pelos indivíduos que a compõe. Salientando que quando falamos desta relação, mas trata-se de relações baseadas em crenças politicas, religiosas ou coisa parecida, mas evidenciando os indivíduos que pensam e por tal motivo existe na relação no contexto do sistema geral inserido sócio-político, ao qual estão sujeitos.
Com a sociologia descobrimos que todas as sociedades existentes possuem um ponto de partida, seu marco zero. Não veio de um cataclismo cósmico, nem mesmo de uma artificial sintetização, tem raízes profundas, firmadas no seu berço originário. E isto é a ponta do iceberg que gera a discussão sociológica, pois para entendermos os problemas sociais enfrentados por um grupo, é necessário detectar a sua origem. “Na verdade toda uma sociedade possui sua fonte de origem a partir da família, o Microcosmo Social”.
Tratando-se de religião, como afirma Paula Montero, é um dos grandes temas fundadores das ciências sociais do século XIX, aprofundando nas palavras de Émile Durkheim, em sua obra As formas elementares da vida religiosa, aborda que a religião é a chave que evidencia a origem social moral e da ideia do sagrado. Entendendo a religião como fenômeno de procedência social, Durkheim, afirma que a religião nada mais é do que a própria sociedade se pensando como ente coletivo e abstrato, para além das particularidades.
As representações criadas pela religião são fontes primarias a partir da qual se diferenciam todas as outras formas de conhecimento humano, como por exemplo, a filosofia e a ciência. Tangendo a referencia com o sagrado, este é a expressão simbólica da própria sociedade e, portanto, tudo que representa a vida coletiva é objeto de veneração que se ás coisas profanas. Ou como diria Karl Marx, num tom politizado sobre a religião ao afirmar que esta é o ópio do povo.
Historicamente, a gênese da modernidade ocidental, encontra-se situada em meio as grandes e importantes transformações sociais do século XVIII, o iluminismo, a revolução industrial, a revolução francesa, momentos históricos essências para redescobrirmos o nascimento de uma nova era, sob a proteção da reflexão e da racionalidade.
O declínio da crença na religião começa a surgir com o advir da modernidade. Alavancando um prognostico, ocorreu em diversos campos da sociedade ocidental, mas estendeu-se, de modo particular ao campo acadêmico, enformando o conhecimento sociológico emergente. No período do século destas revoluções ocorreram muitas leituras da realidade, implicando numa oposição entre a modernidade que traz o individuo como seu ator principal, sendo este racional, substitui em grande escala o precedente da centralização do cosmo sagrado, regido este por sua vez, pelas instituições religiosas, a mencionar o cristianismo, durante muitos séculos, alargando-se no cristianismo e protestantismo, pela coesão social e cultural e a religião.
O pensamento de que a religião deixa de ser a única a cuidar da coesão social, assim como o principio de que esta perde seu poderio monopolista da produção de sentido, começa a tornar comum no contexto social. A realidade já não se ordena pela tangente do sagrado, fazendo com que a religião se autonomize num campo social especifico, perdendo seu ascendente sobre os diferentes níveis sociais modernos, mas mantem mesmo com a decadência importante influencia e de intercepção com diversos campos.
De certo, com a modernidade surge teses do declínio da religião ou como alguns preferem atestar a extinção da religião, mas o processo de secularização, termo este que surge na década de 60, como um termo um paradigma sociológico, só operacionaliza com o decorrer do século XX, Thomas Luckmann, um professor de Sociologia na Universidade de Constança na Alemanha. Desde 1994 é professor emérito. Luckmann tornou-se conhecido por seus livros: A construção social da realidade, de 1966; A religião invisível de 1967 e Estruturas do mundo da vida 1982. Introduziu o conceito de diferenciação ou segmentação institucional. O autor considera que com a modernidade emergiram subsistemas sociais com um grau de autonomia relativo, e que, deste modo, também a religião se autonomizou numa esfera social autónoma. Uma das consequências da segmentação institucional será a privatização da religiosidade.
Longo processo até chegar à praticidade da religião, que sem duvidas é de grande valor e importância para a sociedade. Diversos momentos tensos de embates no campo político, jurídico, social e religioso, para vislumbrara a beleza do que seria o direito de estado laico. Que no Brasil, o regime republicano e uma nova Constituição foi promulgada em 1891, rompendo os laços entre a Igreja e o Estado; ideólogos republicanos, como Benjamin Constant e Rui Barbosa, foram influenciados pela laicidade da maçonaria francesa. A separação entre Igreja e Estado promulgada pela Constituição de 1891.
A atual Constituição do Brasil, em vigor desde 1988, assegura o direito à liberdade religiosa individual de seus cidadãos, e proíbe o estabelecimento de igrejas estatais e de qualquer relação de "dependência ou aliança" de autoridades com os líderes religiosos, com exceção de "colaboração de interesse público, definida por lei." Recordando da celebre frase de Max Weber de que diz: "Deus é um tipo ideal criado pelo próprio homem", demonstrando a ânsia por deixar de lado a forte influência religiosa percebida na Idade Média, período de grande domínio do cristianismo em diversos campos, ao ponto de implantar sistemas de extermínios de seres que se atrevesses a contradizer os seus dogmas e doutras – a santa inquisição – em busca do fortalecimento de um Estado laico. O laicismo teve seu auge no fim do século XIX e no início do século XX.
Contudo, questiono-me, dentro dos padrões educacionais do nosso Brasil, dentro das temáticas aplicadas em minha sala de aula, esta um campo social, onde a diversidade é sempre presente e o respeito deve ser o alicerce de todo tradado sociológico e religioso, qual a importância da sociologia para a religião? Para o ensino religioso? Para a pratica social da religião?
Todas as discursões existentes a cerca da obrigatoriedade ou não da sociologia e de ensino religioso nas escolas partem, quase sempre no sentido em perguntar se ambas as disciplinas, mas propriamente o ensino religioso, é um instrumento doutrinário das religiões, principalmente a católica, como ocorreu ao longo da historia ou um instrumento de formação dos nossos alunos, com valores éticos, morais e sociais positivos? Para esta pergunta a nova LDB nos responde: a segunda opção.
Mais uma vez recorro a historia, diversas vezes as péssimas sociologias, ou melhor, os péssimos pensamentos a cerca de um principio sociológico, tem por tradição querer descartar como inútil, desnecessário a abordagem do ensino religioso e da sociologia na escola publica, na melhor das piores hipóteses, tentam coloca-las em segundo plano, sem perceberem que todo esse desenrolar é de certa forma negativa para o bom andamento da sociedade, pois o retira da proximidade com o transcendente ancestral que os leva ao um encontro com o outro o convívio social.
Karl Marx, pai do agnosticismo, ao escrever a celebre frase: “a religião é o ópio do povo”, endereçava este pensamento às religiões dominantes de sua época, comungadoras do poder opressor. Em nenhum momento queria este aniquilar o fenômeno religioso, mas com toda certeza os homens, as instituições que compõe o campo religioso, que se apoderavam desse poder simbólico, como afirma Bordieu, quando ressalta a sua concepção do “campo religioso” pensando estritamente em termos institucionais, nesse sentido, não consegue atinar para o fato de que a religião pode preencher uma função social, ou mesmo simplesmente ter uma realidade qualquer fora da estrutura institucional na qual os interesses dos grupos são convertidos em interesses religiosos.
Quando se faz parte dele, participa-se da crença inerente ao fato de se pertencer a um campo, qualquer que seja ele. A questão da crença religiosa como afirma Bordieu, esta vinculada ao fato de pertencer ao campo religioso, chamado de illusio, um constante jogo de interesses e vantagens especificas. Em outras palavras, a sociologia dos determinantes sociais da pratica sociológica, aparece como único meio de acumular diferentemente das conciliações fictícias do jogo muitas vezes duplo de pertencer e de conquistar.
Retomando Marx, este não deixou de levar em consideração seus estudos sobre o fenômeno religiosos, escreve juntamente com Engels um livro sobre a religião. Assim como Marx, Weber e Durkheim debruçou a compreender este fenômeno necessário para a sociedade, em seus livros “As formas elementares da vida religiosa” (Durkheim) e o “A ética protestante e o espirito do capitalismo” (Weber), fontes preciosas de referencias sociológicas escritas até os nossos dias.
Contemporaneamente encontramos Peter Berger e Pierre Bordieu, este já mencionado, pensadores sociológicos que evidenciam em seus estudos a importância da proximidade entre a religião e sociologia. Esta segunda existente não com o objetivo de destruir a primeira, ou a existência do sagrado, mas auxilia a compreensão de como os homens se articulam e vivenciam na pratica a dimensão do sagrado em que acreditam.
É resultante evidenciar o diálogo travado entre o ensino religioso e a sociologia, ao longo de muito tempo, a sociologia se preocupa em perceber o fenômeno religioso, como o fato marcante nas grandes obras fundantes do próprio pensamento sociológico. As diversas ciências que buscam uma ideal conversação com a religião, buscam definir precisamente o seu objeto e o seu lugar neste processo de diálogo social, uma logica de identificação.
Exemplificando a teologia, como uma das primeiras ciências existentes, pois debruça no discurso sobre Deus e o relacionar-se com Ele, preocupa-se com a interpretação da fé. A filosofia por sua vez, mais articulada com a teologia que com a sociologia, busca ser amante da sabedoria, esta sabedoria que esta em todos os campos e desta forma aproximando da sociologia, pois estes campos são compostos de indivíduos que são também fontes destas sabedorias. A história empenha-se na compreensão histórica dos homens com o trajeto temporal, convivendo com a religião e as consequências deste convívio.
A psicologia, com seus artefatos da psique, empenha-se na avaliação das influencias da fé na formação do intelecto e da personalidade do individuo que compõe o campo social. A sociologia em relação a religião teria como campo de atuação a percepção da fé como manifesto na sociedade capaz de observar a função, a comparação das diversas religiões e o caráter que esta função da religião tem como material de influência na organização e manutenção da sociedade. Por sua vez, esta mesma sociologia funciona como sistematizadora do fenômeno religioso, para uma melhor compreensão e verificação do grau de influencia na formação e manutenção do grupo social, comunidade.
Por este momento, poderíamos responder a pergunta feita no inicio: qual a importância da sociologia para a religião? Para o ensino religioso? Para a pratica social da religião? Tão somente a sociologia com seu cabedal de teorias e pensadores, capazes de dar ao educando em sala de aula, e a todo e qualquer que se debruce a entender esta relação, dando a noção clara de como a sua opção religiosa, seu estilo de vida dogmático ou outra qualquer que é fator de composição do cenário atual da nossa sociedade.
Todo grupo, comunidade, sociedades, por mais modernas e secularizadas que sejam, traz no seu intimo, uma chama que o liga ao imanente, transcendente, um argumento sagrado. Sem a sociologia e seu olhar peculiar, difícil é a percepção deste elo com a religião, mesmo sendo este de forma desestruturada, mas um olhar fundamental e importante para a compreensão da sociedade, do grupo ao qual o individuo encontra-se inserido e, concomitantemente, dificulta o individuo no processo de construção do conhecimento em sala de aula, vislumbrar o valor de sua pratica religiosa na sociedade, indo além, nublar-se-á para este individuo, membro do corpo social, a noção de que sua religião pode servir como fator de justiça e igualdade entre os diversos indivíduos que compõem o quadro social, fator este de transformação desta sociedade ainda injusta para a construção de uma fraternidade com valores éticos, voltadas para a valorização desde indivíduos em todo o que compõe.

Referências:
BOURDIEU, Pierre, COISAS DITAS - tradução Cássia R. da Silveira e Denise Moreno Pegorim; revisão técnica Paula Montero. - São Paulo: Brasiliense, 2004. Págs. 108 a 125.
Sociologia: ensino médio / Coordenação Amaury César Moraes. - Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2010. 304 p.: il. (Coleção Explorando o Ensino; v. 15). Capitulo 6 - Págs. 123 a 138.



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