terça-feira, 18 de novembro de 2014

MÍSTICA: EXPERIÊNCIAS DO COTIDIANO NA ANCESTRALIDADE RELIGIOSA

MÍSTICA: EXPERIÊNCIAS DO COTIDIANO NA ANCESTRALIDADE RELIGIOSA

 Adson Silva[i]

Mas o que vem a ser mística? Partindo de um artigo do Frei Vitorio[ii] frade franciscano, ele ressalta que: o termo MÍSTICA, como substantivo, provém do adjetivo MISTIKÓS, derivados do verbo MÚEIN que quer dizer: fechar os olhos e a boca. Olhos fechados para enxergar somente o segredo, e a boca para não se revelar, a não ser no momento ou à pessoa certa. Deste verbo grego MÚEIN deriva o substantivo MISTÉRIO, que designa, no sentido helenístico: o rito religioso secreto de iniciação que coloca em contato o ser humano com a divindade. Na Teologia Espiritual do Novo Testamento, o termo MISTÉRION é usado para elucidar a compreensão do mistério do Reino de Deus, a sabedoria escondida do Pai, a presença do Filho no mistério da Encarnação, o destino final da caminhada terrena e a relação mística entre Jesus Cristo e a Igreja. Na Vulgata, o termo é traduzido como MISTERIUM ou SACRAMENTUM. Nos primeiros séculos do cristianismo, a palavra não é apenas uma identidade lexical, mas realidade teológica. A pergunta volta sempre porque não dá mesmo para definir o que seja de uma vez por todas. É como o caminho, na educação popular: é caminhando que se faz caminho. O entendimento do que sejam e de quais as diferenças e relações entre mística e espiritualidade vai ficando mais claro nas práticas de busca dessas qualidades do ser humano.
E este é o caminho traçado por tantos sacerdotes das diversas religiões, dentro de sua pratica, do seu exercício de ser e fazer fortalecer a religiosidade que trazem de suas heranças ancestralidades.  Nada mais que qualidades do ser humano, independente dele ser homem ou mulher, tendo originado no sopro da vida, o mesmo presente no livro do Genesis, na “criação do homem Adão”, num desejo do Alto de torná-los, home e mulher a sua “Imagem e Semelhança” (Gn 1, 26-30), dotados dum livre arbítrio que nos possibilita a escolha a exemplo da liberdade do próprio Deus, nos tornando bons ou nãos nos caminhos que escolhemos de vida.
A parábola do semeador, presente no livro do Evangelho de Mateus, no capitulo 13, nos auxilia na compreensão do vem ser essa mística atrelada à espiritualidade. Vislumbramos esta semente como um chamado que cada um recebe desde o momento de sua concepção, uma bia proposta e que respondemos de acordo dom nossas convicções. Jesus nos adverte a amar uns aos outros a seu exemplo, isto independente da orientação religiosa, no contexto deste trabalho, onde a religião do candomblé é ressaltada, Olorum, que é amor, nos convida a amar indistintamente, mas diversos são os terrenos e os corações onde essa boa semente é lançada, algumas são como o terreno pisado e duro das estradas; outras, como o terreno pedregoso; outras, como um terreno infestado de espinhos; outras, enfim, como o terreno fértil, que acolhe e faz germinar a semente, produzindo frutos, gerando vida a exemplo dos orixás, que são fecundos dentro da doutrina desta religião, atrelado ao principio de se colocar a serviço do outro para que a exemplo de Deus/Olorum, possa se doar naquilo que se propõem a viver.
Todos antes de abraçarmos a religião, que nos conduzira há uma experiência mística de contato com o Imanente, Transcendente, traz consigo suas motivações, ideias e valores do cotidiano, o seu modo de viver e fazer a prática religiosa, de conviver com as pessoas e com a terra em seu todo, cada elemento que a ela compõem ressaltando com isso a sua mística. E a tem como fruto do que Deus/Olorum semeou nela e do que ela própria semeou em si; isto é, do interesse, da busca, maior ou menor, do que a ajudaria a ser melhor; essa semeadura, essa busca, realizada por meio de diferentes práticas, é o seu cuidado com seu espírito, o cuidado para ser um terreno fértil, em que novas sementes podem germinar: é a sua espiritualidade, que resume em ser um conjunto de praticas que caracterizam cada um e todos os caminhos escolhidos na busca de serem melhor a cada dia, alimentados pela força do espirito/orixá, transformando a cada passo o seu e dos que o circunda seu caminho.




[i]  Adson Silva, Professor, Historiador, Teólogo, Psicopedagogo, estudante da UFBA – Universidade Federal da Bahia – do Curso UAB - Especialização no Ensino da Sociologia no Ensino Médio.

Africanidades.

Que fez e faz história
Segurando esse país no braço
O cabra aqui não se sente revoltado
Porque o revólver já está engatilhado
E o vingador é lento
Mas muito bem intencionado
E esse país
Vai deixando todo mundo preto
E o cabelo esticado
Seu Jorge, Marcelo Yuca E Wilson Capellette

Durante todo o ano de 2014, buscamos desenvolver um único pensamento: “Não importa cor, raça, língua, religião, orientação sexual, somos todos filhos de um único e mesmo Deus que nos concede a liberdade de escolha”.
Percorrendo um longo processo de busca da legitimação do ser e pertencer a uma linhagem ancestral, os meus amados alunos do 6º ano (antiga 5ª série) do Centro Educacional Claudionor Batista – CECBA, localizado no Distrito do Monte Recôncavo – São Francisco do Conde – Bahia, comunidade genuinamente negra, em sua cor, em seus penteados, em seus costumes, em suas atitudes, em suas manifestações, comunidade remanesceste de quilombo que luta pelo reconhecimento de sua identidade, me presentearam com uma grandiosa exposição de suas manifestações religiosas, onde o respeito entre a diversidade se encontra, inicia e encerra tudo nos atabaques e agogôs, no pandeiro e no samba, no Ijexá e Afoxé, no preto e no branco, no cinza e nas cores, no lindo rosto de futuro expressado em cada olhar que encontrei durante todo este ano.
Pertencer é possibilitar CONSTRUÇÃO.
Construir é acreditar nas GENTES.
Viver com as GENTES, é poder desfrutar das maravilhas de SABERES e SABORES.
Sabores enraizados, que buscam a cada instante vencer os preconceitos.
Saberes que a todo instante nos instiga na ânsia da busca do sempre mais.
 Gente simples, gente negra, gente de origens e raízes profundas e fortes, gentes que me orgulham a cada instante na árdua luta de ser e fazer a educação.

Obrigado por permitir que eu fizesse parte de suas vidas em 2014, trago comigo marcas do eterno, da certeza do colo, do ombro do sempre sim, eis a necessidade da terra, de ser presença, essencial para vida. A tua maneira de ser para mim já poda o que há de ruim, neste instante de gozo, a minha vontade é de ser para cada um de vocês, feito sombra, descanso sem fim... E se algum dia esqueceres de mim, só se lembre que eu tenho raiz, só se lembre que estou por aqui.

Vejam abaixo algumas fotos e videos deste momento único: