Nossa
história independente de ser dentro de uma estrutura educacional ou
restritamente ligada aos fatos da historicidade é marcada pela eliminação
simbólica e/ou física do “outro”. Os processos de negação desses “outros”, na
maioria das vezes, ocorreram no plano das representações e do imaginário social
quando estabelecemos os conceitos do que é ser belo, ser mulher, ser negro, ser
homem, homossexual, heterossexual, ou até mesmo do que é ser cidadão, sujeito,
membro de um corpo social, dentro de uma estrutura contemporânea brasileira.
Adentar
no campo da fala, onde o contexto são as relações raciais e de gênero, remonta
a discutir as lutas da comunidade negra, a luta do ser mulher numa sociedade
machista, as diversas instituições que se empenham em debruçar sobre a causa
das minorias, e aqui enfatizo também o grande preconceito e descaso que se tem
pelos nossos ancestrais índio e como já mencionado, negro, dar visibilidade aos
sujeitos sociais implica em uma nova postura de ser humano, de ser profissional,
numa nova visão das relações que perpassam o cotidiano escolar e a carreira
docente, e ainda, no respeito e no reconhecimento da diversidade
étnico-cultural. Representa a inclusão nos currículos e nas análises sobre a
escola desses processos constituintes da dinâmica social, da nossa escola e da
prática social.
É
triste perceber que em tempos atuais, resulta ainda a imensa contradição em
nossa pátria, onde os cursos de formação de professores continuem lançando no
mercado de trabalho profissionais pertencentes aos diversos segmentos
étnico-raciais, que não discutem e nem refletem sobre a diversidade
étnico-cultural presente no processo escolar, e enfatizo com propriedade, pois
esta luta tenho travado com frequências nas instituições de educação por onde
tenho passado. É necessário que as pesquisas educacionais incorporem a
centralidade da raça nos estudos sobre a realidade social brasileira.
Os
movimentos sociais, a luta da comunidade negra e das mulheres exigem da escola
o posicionamento e a adoção de práticas pedagógicas que contribuam na superação
do racismo e da discriminação racial e de gênero, pois estes mesmos agentes
ativos e passivos nos processos discriminatórios em nossa sociedade são
oriundos da mesma estrutura educacional/escolar que nos deparamos diariamente.
É preciso que se dê visibilidade às inúmeras práticas que o Movimento Negro já
tem desenvolvido na educação. É necessário que os educadores compreendam que a
luta pelo direito à igualdade social não elimina as diferenças étnico-raciais.
E que o racismo não conseguiu apagar a dignidade dos sujeitos negros, índios e
mulheres que em meio a este processo devastador continuam lutando pela preservação
da sua herança ancestral que se fundamenta em sua identidade.
A
educação tem objetivos que ultrapassam a ação da escola: preparação para o
mundo do trabalho e para a vida em sociedade. Conforme ficou evidenciado nos
resultados mostrados nas seções do relatório situação da população afrodescendente,
no período entre os anos de 2000 e 2010, houve redução das desigualdades no
Brasil, embora estas persistam em várias áreas, repercutindo sobremaneira na
população afrodescendente.
Há
ampla concordância em relação a reconhecer que as políticas de valorização do
salário mínimo e de transferência de renda foram as grandes responsáveis pelos
avanços brasileiros em termos da melhoria da distribuição de renda e redução
das desigualdades em várias áreas. Em relação ao salário mínimo, que teve um
crescimento do poder de compra de mais de 100% entre 2000 e 2011, a
continuidade da valorização depende da existência de crescimento econômico, que
tem sido abaixo do esperado nos últimos anos.
No
entanto, alguns analistas afirmam que é preciso ampliar os investimentos em educação
para garantir a sustentabilidade dos avanços obtidos até agora, assegurando que
haja elevação da qualidade do ensino e ampliação da cobertura, especialmente,
no ensino médio e no ensino superior (A Tarde, 27/10/2013).
A
escolarização aparece como principal processo a partir do qual os indivíduos
adquirem capacidades e habilidades que garantiriam acesso às mais diversas
posições sociais e, portanto, a universalização do acesso ao sistema escolar
seria condição suficiente para que indivíduos vindos de diversas origens
tivessem acesso a posições sociais mais altas, desde que dotados de capacidades
pessoais para tanto.
Além
das diferenças de acesso e das barreiras à promoção dentro do sistema escolar,
outro aspecto em que a desigualdade entre brancos e negros, índios, homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais,
deve receber atenção diz respeito ao domínio de conteúdos cognitivos que a
escola tem por função transmitir aos seus alunos. E como bons resultados
escolares estão associados a melhores chances de vida, uma vez que a escola
pode ser pensada como instrumento de superação das desigualdades sociais, mesmo
que de forma não absoluta, a compreensão de porque os negros, índios e as
diversas minorias da sociedade têm, sistematicamente, experimentado situações
escolares desfavoráveis, em relação aos domínios dos conteúdos escolares, pode
contribuir para reflexões mais substanciais acerca da desigualdade no que tange
ao desempenho, que perpassa a escola, e não tem recebido atenção considerável
no seio do debate sociológico sobre desigualdade.
Para
explicar a desigualdade no que tange ao acesso ao conhecimento científico,
Tilly passa, então, a definir o que entende por desigualdade. A desigualdade entre categorias, denominada de
desigualdade categórica, é o tipo que interessa a Tilly : Consideremos a
desigualdade categórica, isto é, aquelas formas de benefício desigual em que
conjuntos inteiros de pessoas, de um lado e de outro da fronteira, não recebem
o mesmo tratamento.
A
discussão se refere à desigualdade científica, ou de acesso ao conhecimento
científico, mas o conceito pelo autor operado para essa forma de desigualdade
pode ser ampliado para outros contextos, como as desigualdades entre grupos
sociais, nas diversas situações de dominação e dominados, nas relações onde
predominam o preconceito, qualquer que seja o contexto onde o apliquemos, como
a escola, por exemplo.
A
desigualdade de classe, no registro relacional, não deve ser pensada somente no
nível da renda em si, mas sim, nas causas da desigualdade da renda (mesmo
assim, com a renda sendo tomada como um dos indicadores para a desigualdade, e
não como o único). Os ordenamentos sociais são importantes para o entendimento
da desigualdade, pois nossas ações sociais são influenciadas pelas estruturas
sociais e pelas relações intersubjetivas.
Tais
concepções são de suma importância, pois nos apropriam dos contextos de
desigualdades em que estão inseridos os sujeitos aos quais são os agentes de
construção do conhecimento, e que reflete nas estruturas da sociedade. Visto
que a desigualdade, apesar de material, não está relacionada diretamente apenas
com aspectos econômicos, como nos mostra a discussão acerca da desigualdade de
acesso ao conhecimento científico feita por Tilly, também apresentadas no texto
titulado como “situação social brasileira - monitoramento das condições de vida
2”, do governo federal, desenvolvido pelo IPEA – Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada.
Em
seu teor percebemos que, os indicadores derivados da PNAD 2009 têm mostrado uma
gradual melhora nas condições de acesso à moradia e ao saneamento básico
adequado por parte da população brasileira. Contudo, não se pode deixar de registrar a
existência de um contingente significativo de moradias inadequadas, de 9,1
milhões de domicílios não são servidos por rede geral de água e de 16,2 milhões
de domicílios que não são cobertos pela rede geral de esgoto ou por fossas
sépticas.
Se
por um lado isto indica uma alta taxa de posse de veículos, comparada com
outros países em desenvolvimento, com reflexos diretos sobre as condições de
mobilidade do conjunto da população, por outro lado também mostra que a
população, inclusive a parcela de menor renda, tem acesso a este desejado bem
durável, existindo a possibilidade de aumento em termos de percentual de posse.
Este
tempo pode vir a aumentar no futuro, em função do crescimento acelerado da taxa
de motorização da população, conjugado com a falta de investimentos públicos
nos sistemas de mobilidade. Pelos números apresentados na quarta seção do texto
original, pode-se verificar que a taxa de motorização da população ainda pode
crescer, o que com certeza gerará impactos negativos sobre as condições de
mobilidade e os tempos de deslocamento nas cidades, demandando investimentos
vultosos por parte dos governos em melhorias das infraestruturas de mobilidade
urbana nas próximas décadas.
Assim,
a questão “gênero” é a fronteira para uma desigualdade categórica entre homens
e mulheres; a questão “raça” é a fronteira para uma desigualdade entre negros e
brancos, por exemplo; e a questão acesso ao conhecimento científico é a
fronteira para aqueles que têm ou não tal conhecimento. A dimensão relacional
da desigualdade é constituinte da própria desigualdade.
A
pesquisa, vem, de longa data e com diferentes enfoques, tratando dessas
diferenças e de suas consequências tanto no plano objetivo (escolaridade,
renda, mobilidade social) como no plano subjetivo ou simbólico (autoestima, auto
percepção enquanto ator social), apontando que o pertencimento a diferentes
grupos raciais está fortemente associado a persistentes desigualdades sociais e
que, embora seja possível encontrar indivíduos brancos, pretos e pardos,
índios, homossexuais em quaisquer pontos da escala de estratificação, os
negros, índios, homossexuais e mulheres estão sempre em piores condições que os
demais em todos os indicadores sociais.
Nas
últimas transições, que se referem à entrada e permanência no ensino superior,
a desigualdade de raça é semelhante à desigualdade de classe. A desigualdade
racial não é produto de classes somente, já que o fator raça também gera
efeitos na desigualdade, embora haja relação entre a raça e fatores
socioeconômicos. Imputar as causas dessas desigualdades, no Brasil, ao passado
colonial escravista brasileiro, embora este tenha tido importância para a
desigualdade social, acaba por, primeiro, isentar as atuais gerações da
responsabilidade pela desigualdade, segundo, oferece uma desculpa fácil para a
permanência das desigualdades (já que é algo secular e não pode ser resolvido
rapidamente), e, por fim, deixa sugerido que o fim dos problemas econômicos
será também o fim dos problemas sociais, conforme afirma Guimarães.
É
preciso chamar a atenção para o fato de que, mesmo que brancos, negros, índios,
mulheres, homens, heterossexuais, homossexuais tivessem chances iguais de
entrar e permanecer no sistema de ensino, a “qualidade” ou “eficácia” dessa
permanência é diferenciada entre os grupos: o desempenho escolar dos alunos que
se declaram pertencentes à minoria, a classe desfavorecida e oprimida pela real
sociedade é sempre menor que o dos alunos oriundos do demais seguimentos da
sociedade, os ditos dominadores, em todas as séries, e a distância aumenta ao
longo da permanência no sistema, mesmo para indivíduos na mesma condição
social.
Do
ponto de vista sociológico, essa abordagem chama a atenção para uma espécie de
desigualdade definidora, até certo ponto, das chances de vida dos indivíduos,
apontando para a denúncia de um discurso que coloca a escola como uma fonte de
superação heroica das desigualdades, o que ela pode fazer em parte, mas nem
sempre e em todos os casos. Tais afirmações corroboram, no plano de desempenho
escolar, os achados de inúmeras pesquisas sobre desigualdades raciais, indicam
que os alunos oriundos das classes de minorias sociais têm, sistematicamente,
piores resultados que os demais grupos e essa desigualdade é ainda maiores
entre os alunos em melhores condições socioeconômicas.
Contra
um discurso social derrotista, que enxerga na escola não mais do que um
epifenômeno do mundo social, incapaz de propiciar mudanças nas condições de
vida dos alunos, devido à força irredutível da condição socioeconômica, as
políticas públicas em educação podem ser um instrumento eficaz para resgatar a
percepção de uma escola que pode fazer mais do que somente reproduzir
desigualdades.
Por
fim, tomando as palavras de Guimarães, quando o mesmo afirma que,
a
retomada do conceito de gênero e raça pela sociologia brasileira fez-se,
contudo, sem que se desse muita atenção às implicações teóricas e políticas do
seu uso. Banido das ciências sociais desde o começo do século, substituído no
senso comum brasileiro, com sucesso, pela noção de cor, tomada como reprodução
imediata de uma realidade objetiva e empírica, o anti- racialismo começou,
todavia, a chocar-se contra os fatos ululantes da discriminação social no
Brasil. Esta redução do anti-racismo ao anti-racialismo acabou por contrariar
os interesses e os valores do povo negro brasileiro, que ressuscitou — na sua
luta contra o mito da democracia racial — o conceito de "raça" tal
como é usado no senso comum.
Não
basta referir-se a múltiplas identidades e desigualdades sociais e advogar sua
alquimia para ação transformadora de mentalidades e ambiências, como a da
escola. Cada identidade tem necessidades, formas de expressão cultural e
contribuições civilizatórias próprias, como a que se orienta pela construção
social entre os sexos e pelo direito a expressas múltiplas do gênero, ou aquela
que se realiza na humanidade singular das pessoas de diferentes inscrições
raciais-raça; ou a que se formata por vivências dos que estão em ciclos de vida
próprios, como as crianças e os jovens-geração.
De
fato, não basta nos contentar, por um lado de certa maneira, re-acessar o
debate sobre classes sociais, amalgamando diferenças e desigualdades. Mas, por
outro, também não se ganha ao substituí-lo por conhecimentos fragmentados. Há,
sim, que se enriquecer a reflexão sobre pobreza, injustiças e sistema de
classes sociais, considerando a multiplicidade do real, urge permitir uma
releitura dos aspectos e reescrever a historia a partir de um novo olhar de uma
nova perspectiva, de um novo grupo.
E
há que se estimular os professores para estarem em alerta, para o exercício de
uma educação por cidadanias e diversidade em cada contato, na sala de aula ou
fora dela, em uma brigada constante anti-racista, anti-sexista e de respeito
aos direitos das crianças e dos jovens, tanto em ser como em vir a ser; não
permitindo a reprodução de piadas que estigmatizam, tratamento pejorativo sobre
fenótipos étnico-raciais, e, antes de tudo, cuidar como se relaciona com seus
alunos, pois muitas vezes em nome desta necessária igualdade, de
insensibilidade para necessidades diversificadas se colabora para que a criança
e o jovem se sintam como desiguais.
O
racismo, o sexismo, o adultismo que temos em nós se manifesta de forma sutil,
não é necessariamente intencional e percebido, mas dói, é sofrido por quem os
recebe, então é violência. E marca de forma indelével as vítimas que, de alguma
forma, somos todos nós, mas sempre alguns, mais que os outros, como as
mulheres, os negros, os mais jovens e os mais pobres.
Estar
consciente de que podemos ser educadores em todas as nossas relações sociais e
por novas e melhores formas de convivência é um desafio e, muitas vezes, uma
angústia, pois nos revela sentimentos e valores que não questionávamos. Mas se
aprende. E o se reinventar, o aprender-ensinar-aprender, se é um desafio, é
também uma das mais belas gratificações do ser professor/aprendiz.
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