O
presente texto tem a pretensão de abordar os princípios da indústria cultural
dentro do contexto cultural, segundo o pensamento de Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno, este que
por sua vez foi objeto de estudo dentro de uma das unidades do nosso curso de
sociologia. De inicio perpassaremos por uma breve reflexão da biografia deste
autor, seguido de uma viagem sobre o principio da indústria cultural, seus
prejuízos e contribuições, tendo como base as discursões ocorridas dentro da
própria disciplina.
Este
renomado intelectual alemão, Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno, nascido em
Frankfurt, no dia 11 de setembro de 1903 , formou-se em filosofia, sociologia,
psicologia, e tornou-se também musicólogo e compositor, graduando-se na
Universidade de Frankfurt.
O
empenho intelectual de Adorno o levou a defender, já em 1924, sua tese sobre a
fenomenologia de Edmund Husserl. Antes mesmo de se formar ele se torna amigo de
Walter Benjamin e de Max Horkheimer, seus futuros companheiros de militância intelectual
e política. Sua trajetória intelectual tem início em 1933, quando lança sua
tese sobre Kierkegaard.
As
primeiras publicações deste filósofo alemão: A Teoria do Romance e História e
Consciência de Classe, mais tarde rejeitadas por ele, para completa desilusão
de Adorno, influenciam profundamente sua produção acadêmica, sustentando seus
ideais e os rumos de sua mente brilhante.
Adorno
foi mais um dos adeptos da Escola de Frankfurt que, durante o processo de
nazificação da Alemanha, foi obrigado a se refugiar na América, por ser de
ascendência judaica e também por sua vocação para o socialismo.
Segundo
Kant, os homens deveriam fazer uso da razão para tomarem conta do próprio
destino. O conceito de esclarecimento utilizado por Adorno não significava o
processo emancipatório que conduziria o ser humano à autonomia e determinação,
daí a inclusão do termo 'dialética' como contradição. De acordo com Kant, como
seres humanos, portanto, abandonaríamos a menoridade e chegaríamos a
muendigkeit (maioridade) a partir de alguns pressupostos. Adorno e Horkheimer
vão mostrar que esta realidade não se concretizará.
Para
alguns teóricos dos anos 90, caso de John Thompson, nada do que foi escrito
pelos teóricos de Frankfurt sobre “indústria cultural” pode ser levado à sério:
Duvido que alguma coisa se possa ainda resgatar hoje dos escritos mais antigos
dos teóricos da Escola de Frankfurt, como Horkheimer, Adorno e Marcuse: sua
crítica do que eles chamavam de “a indústria cultural” era muito negativa e se
baseava em conceitos questionáveis sobre as sociedades modernas e suas
tendências de desenvolvimento.
Para
Adorno, a cultura transcende a autopreservação sistêmica da espécie, pois traz
em seu suporte a dimensão crítica contra todas as instituições que existe.
Dentro deste contexto, o mesmo descreve no que tange a relevância da indústria
cultural, o que importa destacar é que dessa arte popular a indústria cultural
se distingue radicalmente: enquanto a cultura popular teria um caráter mais
espontâneo e nasceria internamente, numa dada comunidade, a indústria cultural
constitui uma manifestação maquinal produzida exteriormente (sob a égide do
capital).
Segundo
os autores, a indústria cultural produziria a regressão do sonhado
esclarecimento para a ideologia, que encontra no cinema e no rádio sua
expressão mais influente talvez encontremos, na crítica ao rádio, mais uma
demonstração de que os dedos de Adorno teriam escrito as justificativas do
termo proposto anteriormente por Max Horkheimer.
Certamente o grande entrave do conceito de
indústria cultural, no âmbito das ciências sociais, deva-se à não
mensurabilidade dos efeitos advindos dessa produção cultural de massa. Citando
o que o mesmo autor diz no seu texto: "A verdade em tudo isso é que o
poder da indústria cultural provém de sua identificação com a necessidade
produzida".
É
importante salientar que, para Adorno, o homem, nessa Indústria Cultural, não
passa de mero instrumento de trabalho e de consumo, ou seja, objeto.
Adorno, no decorrer do texto, abre o problema
da indústria cultural, num certo tom critico, afirmando que o declínio da
religião no mundo ocidental, decorrente do avanço dos processos de
racionalização e secularização, não causou um caos cultural pela falta de uma
unidade de referência coletiva, pois o cinema, o rádio e as revistas se
constituíram num substituto para ela. A indústria cultural desenvolveu-se com o
predomínio que o efeito, a desempenho tangível e o detalhe técnico alcançaram
sobre a obra, que era outrora veículo da ideia e com essa foi liquidada.
Basicamente em boa parte da produção cultural, da indústria cultural a
qualidade estende-se, antes de qualquer coisa, não por um dado.
Enquanto
para a Indústria Cultural o homem é mero objeto de trabalho e consumo, na arte
é um ser livre para pensar, sentir e agir. Além disso, para Adorno, a Indústria
Cultural não pode ser pensada de maneira absoluta: ela possui uma origem
histórica e, portanto, pode desaparecer. Paradoxalmente, devido ao entendimento
semelhante ao estrutural funcionalismo, Adorno e Horkheimer também enxergam a
indústria cultural como um sistema. Se Adorno equivoca-se ao não lançar mão de
outros métodos para comprovar suas hipóteses, pior revelam-se seus críticos,
incapazes de observar que Adorno e Horkheimer não teorizam, mas reproduzem um
sistema de verdades óbvias e incontestáveis em sua generalidade.
Criticamente
Adorno, ressalta que hoje, ideologia significa sociedade enquanto aparência.
Dessa forma, a ideologia deixa de ser falsa consciência para se tornar
propaganda do mundo: a organização do mundo converteu-se a si mesma
imediatamente em sua própria ideologia. Não há mais ideologia no sentido
próprio de falsa consciência, mas somente propaganda a favor do mundo, mediante
a sua duplicação e a mentira provocadora, que não pretende ser acreditada, mas
que pede o silêncio.
De
certo a indústria cultural está corrompida, mas não como uma Babilônia do
pecado, e sim como catedral do divertimento de alto nível, ressalta Adorno, com
falsa unção a indústria cultural proclama orientar-se pelos consumidores e lhes
oferecer aquilo que desejam para si. De forma bem clara, no que se refere aos
meios midiáticos, onde a cultura industrial apela para que o sujeito aceite
tudo que lhe é oferecido, sem ao mesmo tecer criticamente seu pensamento, o mesmo
ressalta que não é bem que a indústria cultural se adapte às reações dos
clientes, mas sim que elas as fingem e finge muitíssimo bem.
Tal
dominação, como diz Max Jimeene, comentador de Adorno, tem sua mola motora no
desejo de posse constantemente renovado pelo progresso técnico e científico, e
sabiamente controlado pela Indústria Cultural.
Num
tom critico ao sistema real de ensino, ressalta que este deixou de certa forma
de ser emancipatório, e indo um pouco além retoma o passado em alusão ao
presente, ele vê as massas através da aludida pureza conceitual perdida. Pala
ele, o capitalismo já se encarregou de transformar tanto Mozart quanto Aviões
do Forró em mercadorias; por fim, a indústria cultural no atual estágio de
acumulação capitalista não é uma produção de base fordista, mas, de fato,
flexível. Logo, a diferenciação é sua marca: diferenciação sempre
indiferenciada, mas existente. Assim, evitando suprimir a dialética em Adorno,
e também evitando as relações causais e substancialistas, é necessário
perpetrar uma tentativa de reequacionamento da relação entre estrutura e ação
na análise da indústria cultural, mostrando, para além das ideologias e para
além das resistências, uma tensão entre elas. Contudo, a presente reflexão
procura evitar um equilíbrio entre os dois lados do campo de forças (dominação
e resistência).
Segundo
Adorno, a indústria cultural impede a formação de indivíduos autônomos,
independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente. Dentro deste
prisma, a ideia dos frankfurtianos merece respeito pelo pioneirismo em abrir os
olhos da humanidade para este novo fenômeno de mercado. Para eles, na indústria
cultural, tudo se torna produto. Enquanto negócio, seus fins comerciais são
realizados por meio de sistemática e programada exploração de bens considerados
culturais.
Um
exemplo disso, dirá Adorno, é o cinema. O que antes poderia ser mecanismo de
lazer, ou seja, uma arte, agora se tornou um meio eficaz de manipulação.
Portanto, segundo a visão dos teóricos alemães, podemos dizer que a indústria
cultural traz consigo todos os elementos característicos do mundo industrial
moderno e nele exerce um papel específico. Ou seja: o de portador da ideologia
dominante, a qual outorga sentido a todo o sistema.
Na
Teoria Estética, obra que tentará explanar pensamentos sobre a salvação do
homem, Adorno dirá que não adianta combater o mal com o próprio mal. Exemplo
disso ocorreu no nazismo e em outras guerras (FREITAG). Segundo ele, a antítese
mais viável da sociedade selvagem é a arte. A arte é que liberta o homem das
amarras dos sistemas e o coloca como um ser autônomo e, portanto, um ser
humano. Enquanto para a indústria cultural o homem é mero objeto de trabalho e
consumo, na arte é um ser livre para pensar, sentir e agir. A arte é como se fosse
algo perfeito diante da realidade imperfeita, cuja estratégia se revela no
assassinato, na corrupção e paranoia consumista.
Logo,
existe uma evolução no pensamento de Adorno. Ele não reconhece a generalização
imperfeita de sua proposição para o conceito da indústria cultural. Antes
disso, retoma uma teoria bastante coerente para a importância da arte e
estética. Como já mencionado anteriormente, em todo caso, a análise pioneira da
indústria cultural desperta os demais ramos de estudos da comunicação e dos
seus meios para conseguir chegar ao objeto maior desta indústria que passa pela
dominação daqueles que se tornam usuários desta mesma indústria, para encontrarem mecanismos de pesquisa que
comprovem ou rejeitem a proposta de Adorno e Horkheimer.
Neste
momento recordo-me do clássico Show de Truman, com uma brilhante e celebre
frase, “vivemos, a cada dia mais, o show de Truman”. De certo vigiados e
conduzidos pelo sistema industrial cultural, onde situados num enorme circulo
do cenário real e social, povoados por seres que embasam suas vidas e praticas
reais nos recortes midiáticos, que adentram as nossas vidas. Uma falsa
realidade, onde para Christof, personagem principal da trama, este dissuadindo
o senso de exploração dando sumiço em seu pai, fazendo com que este, acredite
que o mesmo morrera em alto mar e afastando seu único amor.
Não
muito distante e diferente da realidade de inúmeros indivíduos que legitimas as
suas realidades na temporalidade das tele novelas, produto desta indústria
cultural, vivendo de facetas, que oscilam a cada nova estreia, a cada no estilo
ditado pela mesma, vivendo a futilidade da irrealidade, como débeis culturais,
formadores de pensamentos e protagonistas de suas vidas e historias,
verdadeiros objetos.
De
certa forma o filme Truman, mostra o poder da mídia, esta indústria cultural
como menciona Adorno, inspirando espectadores ao redor do mundo, o que
significa que suas vidas acabam sendo controladas por quem manipula esse poder
midiático, exemplo diste vemos por 15 anos a rede globo realizar esta façanha e
rendendo milhões de pessoas desejando ser manipuladas.
O
mundo se encontra faminto por publicidade, por holofotes, o show de Truman, ou
poderia chamar a síndrome de Truman, mostra nitidamente a desilusão que se
encontra o mundo contemporâneo.
Por
fim, podemos dizer que Adorno foi um filósofo que conseguiu interpretar o mundo
em que viveu, sem cair num pessimismo. Ele pôde vivenciar e apreender as
amarras da ideologia vigente, encontrando dentro dela o próprio antídoto: a arte
e a limitação da própria Indústria Cultural. Portanto, os remédios contra as
imperfeições humanas estão inseridos na própria história da humanidade. É
preciso que esses remédios cheguem à consciência de todos (a filosofia tem essa
finalidade), pois, só assim, é que conseguiremos um mundo humano e sadio.
Referencias:
ADORNO,
Theodor W. Textos Escolhidos. Trad. Luiz João Baraúna. São Paulo: Nova
Cultural, 1999. (Os Pensadores)
ADORNO,
Theodor W. Mínima Moralia: Reflexões a partir da vida danificada. Trad. Luiz
Eduardo Bisca. São Paulo: Ática, 1992.
FREITAG,
BARBARA, Teoria Crítica: Ontem e Hoje. São Paulo: Brasiliense, 1986.
HORKHEIMER,
M., e ADORNO, T. W., Dialética do Esclarecimento: Fragmentos filosóficos. Trad.
Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
HABERMAS,
J. O Discurso filosófico da modernidade. Trad. Ana Maria Bernardo e outros.
Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1990.
MERQUIOR,
José Guilherme. Arte e sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin. Tempo
Brasileiro, Rio de Janeiro, 1969
PUCCI,
B.; OLIVEIRA, N.R.; ZUIN, A.A.S. Adorno: o poder educativo do pensamento
crítico. 3ª ed. Petrópolis: Vozes, 2003
SLATER,
Phil. Origem e Significado da Escola de Frankfurt. Rio de Janeiro, Zahar
Editores, 1978.
THOMPSON,
John B. A Mídia e a Modernidade: uma teoria social da mídia - Petrópolis, RJ :
Vozes, 1998.
WIGGERHAUS,
Rolf. A Escola de Frankfurt, História, desenvolvimento Teórico, significado
político Editora Difel, 2001.
Nenhum comentário:
Postar um comentário