segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Memória Social, uma construção do individuo para o coletivo.



Memória Social, uma construção do individuo para o coletivo.
Adson Silva

Ao considerarmos as memórias como fonte da história estamos levando em conta um sentido específico de memória, o que exige uma reflexão sobre a sua natureza. Se o conhecimento só nos pertence de forma contingente, as memórias são indissoluvelmente nossas, fazem parte de nós e nos constituem. Estamos no centro delas e só quando elas fazem conscientemente parte de nós podemos partilhá-las com outros. A recordação, portanto, não se separa da consciência, mantendo com ela uma via de mão dupla. As memórias dizem quem somos. Integram nosso presente ao passado, tanto na perspectiva de que inventamos um passado adequado ao presente, quanto o contrário.
Os estudos sobre a constituição da memória social é uma assinatura geral de investigação em diversos objetos do nosso passado, pelos mesmos que somos moldados, e nas diversas áreas. As memórias como afirma Halbwachs, tem como função primordial estreitar os laços entre os membros do grupo, a partir de sua compreensão individual do passado, causando-lhes uma ilusão de imutabilidade, cristalizando assim os valores dessas. Dentro de uma perspectiva de trabalho, as memórias como coletivos do trabalho ao qual nos dedicamos das nossas reminiscências da infância, da escola em que estudamos, de todas as práticas vividas têm uma validade relativa, histórica, pois estas são construídas socialmente. Esta é a mesma sociedade que determina em boa medida como devemos desempenhar nossas funções e com que categorias vamos pensá-las, valendo tanto para o indivíduo quanto para a coletividade, retomando o pensamento de Halbwachs, num permanente processo de negociação.
A premissa de que todos os grupos sociais desenvolvem uma memória do próprio passado coletivo e que essa memoria é indissociável para o processo de manutenção do sentimento de identidade, o que o permite identificar o grupo e distingui-lo dos demais. Este grupo social que é uma entidade autônoma e independente, mantem as suas memórias dentro de um conjunto de valoração defendidas e que são comuns a todos.
Se o que defendemos não estivesse ameaçado não haveria necessidade de construir lugares de memória, de desnaturalizar o esquecimento. Este esquecimento que surge de diversos fatores externos como bem exemplifica Pollak, quando relata o mal do passado, no entanto, um esquecimento que constitui a memória e outro que a silencia. Porém podemos usar o esquecimento de forma conveniente. Arrumamos a memória de acordo com nossos sentimentos e crenças e realizamos um grande investimento para esquecer parte das nossas vivências, talvez até maior do que o esforço para mantê-las. Nesse sentido, esquecer é um ato político que não se reduz à dimensão do Estado. A caracterização dessa luta entre a lembrança e o esquecimento pode ser ilustrada por um medo, um aforismo nietszcheano, a vergonha racial, o preconceito do gênero, vitimados pela maquina da opressão, os navios negreiros, que denuncia não só a forma pela qual fazemos certas escolhas, mas também o que está em jogo no ato de esquecer.
Utilizarmos as nossas memorias como fonte, é nada mais que evidenciar o poder de articulá-las, a possibilidade e porque não dizer o poder de comunicar-nos  e de expressar de forma articulada em textos as nossas memórias, dos fatos vividos, possibilita enxergar tais memorias com olhar objetivo, diante ao sentimento do que foi vivido, do que experimentamos ao vive-las,  isto é, ganhamos acesso mais facilmente a um aspecto das nossas memórias que é, sobretudo, social - embora seja muito relativa a separação que fazemos entre o pessoal e o social. O sentimento experienciado nos cotidianos nos remete as emoções que são tanto pessoais quanto sociais e que fazem parte de um repertorio incontável que envolve a tantos, logo o que era de cunho pessoal, no fundo é na verdade social, pois envolve uma diversidade de pessoas pertencentes ao nosso grupo de convivência e tantos outros frutos do imaginário. Afirma Pollak, que nossas memorias são constituídas de elementos objetivos e subjetivos, dai poderíamos simplesmente afirmar que neste momento as nossas memorias são puramente subjetivas, estruturadas pela linguagem na qual a redigimos, pela formação oriunda de uma longa trajetória de vida, pelo ensino, ideias assumidas no coletivo e pela partilha de nossas experiências.
Trazer a tona as nossas recordações é poder confeccionar representações de nós mesmos, composta de fatos e fatores externos, estritamente ligado ao local, comunidade, bairro em que a nossa historia de vida foi gestada, Ecléa Bosi afirma: “uma historia de vida não foi feita para ser arquivada ou guardada em uma gaveta como coisa, mas para transformar a cidade onde floresceu”. Não importado se esta memória é oral, escrita, musicada, pintada, fotografada. Na maioria das situações somos o que lembramos, dentro de um processo celetista e se pudéssemos estudar os meios pelos quais selecionamos os fatos memoriais, de que forma os organizamos e estruturamos nossas ideias, e como somos capazes de transmiti-las, certamente desembocaríamos na existência de uma história das diversas maneiras de proceder e acumularíamos o conhecimento histórico dos movimentos que nelas existem.
A memória pessoal é nada mais que uma faceta de uma memória mais ampla que envolve a própria sociedade. Da mesma forma, toda sociedade tem uma memória e toda memória é individual e social ao mesmo tempo, estas estão relacionadas há um continuo e constante ciclo complexo de subjetivação, aglutinando neste ciclo as sensações, imagens mentais altamente privadas e espontâneas até solenes cerimonias públicas vividas intensamente. Estas ancoradas nos berços que nos gestam e originam para o convívio social:
As lembranças se apoiam nas pedras da cidade. Se o espaço, para Merleau Ponty, é capaz de exprimir a condição do ser no mundo, a memória escolhe lugares privilegiados de onde retira sua seiva. Em primeiro lugar, a casa materna; tal como aparece nas biografias, é o centro geométrico do mundo e a cidade cresce a partir dela em todas as direções. Dela partem as ruas, as calçadas onde se desenrolou nossa vida, o bairro. Sons que voltam, sons que não voltam mais, pregões, cantilenas que recolhi e procurei gravar em pauta musical. ( Eclá Bosi, 2003)
Sua casa materna no convívio com os seus, sua rua, seu bairro, seu grupo social, em seus diferenciados aspectos e objetos que manipulamos que nos recorda que somos indivíduos e que nossas experiências tem seu caráter singular, esta presente quando enfatizamos a nossa experiência social, pois como indivíduo não construímos um mundo, não somos autônomos, passivos, inertes e obedientes a uma caracterização de vontade social interiorizada.
As escolas, celeiros da nossa pratica de educar também são "celeiros" de memórias, espaços nos quais se tece parte da memória social. As anamneses do espaço escolar, só são possíveis por nos proporcionar uma rotina e uma perenidade no tempo. A importância desde espaço de construção e desenvolvimento mesmo quando nos afronta nas subjetividades contemporâneas, representa desde a nossa infância até o momento atual, como enfatiza Valeska de Oliveira, “quando põem em evidencia as historias de vida e os registros significativos dos desafios de conhecimentos com os quais se implicaram ao longo de sua trajetória pessoal e profissional”. 
Recordar o espaço escolar é possibilitar por meio destas lembranças a construção de um memorial, onde tudo o que esta entorno, o percurso de casa para a escola, as inúmeras descobertas e manipulações, os perigos e as aventuras de super herói, desafios e brincadeiras, vestimentas/uniformes que identificam meninos de meninas, os calçados nos mais diversos tipos, mesmo sendo num estilo padrão, reveladores das marcas da vida familiar, da dependência infantil e dos efeitos de uma qualificação social. Os objetos da escola, os livros, cadeiras, carteiras, boletins, todo material escolar, continuam até o presente momentos servindo como depositários de vivências ricas de significado, animados por nossos amores, estórias, toques, revividos pela interação entre pessoas e coisas, agora apenas representada.
Uma memória que se enraíza nos gestos de um local concreto e que se torna emblemática quando é conferida à instituição que lhe dá suporte a transmissão dos valores da nação, como afirma Pollak, ao mencionar sobre o enquadramento da memoria (histórico e politico) tudo isto para melhor definir seu lugar respectivo, que se alimenta do passado, de certa maneira dos fatos fornecidos pela história, satisfazendo certas exigências de justificação. Quando se trata de nosso cotidiano, tudo que se refere a este como lugares, objetos, vestimentas, ganham seu reconhecimento e sentido essencial pleno, a partir da interação com o meio, com o outro com o social, grupo, coletividade, do comportamento e de seus valores.
Remete a um tempo preciso que a lembrança nostálgica muitas vezes esgarça. É o sinal de que se reconhece e pertence a certo grupo social e a uma determinada geração. Neste sentido, a escola como lugar de memória é simultaneamente material, simbólica e funcional. A materialidade só se consagra como local de memória se possuir uma aura simbólica, o que apenas as instituições escolares tradicionais na nossa sociedade parecem cultivar. Mesmo um manual escolar só se configura como lugar de memória se for utilizado ritualmente. Logo, uma condição fundamental na constituição dos lugares de memória é a intenção. A escola representa apenas uma dimensão da multifacetada realidade social, local no qual se exerce um dos ofícios impossíveis na apreciação de Freud: ensinar.
Em suma, a memoria social pode ser encarada apenas como sendo determinada, regida e coercivamente imposta por uma constelação de poderes que emana de nosso passado. É sabido que as relações sociais do passado não muito distante se encerrava sempre na relação do poderio, sinal de dualidade entre dominado e dominador. A pós modernidade abrangendo o nosso período contemporâneo surge na historia da memoria social, para evidenciar que somos e podemos pertencer a uma multiplicidade de grupos  e de identidades, que de certo, as nossas memórias são constituídas e construídas de forma dinâmica, conflitual, dialógica e seletiva, não se limitando á qualquer moldagem imposta por exclusividades de um determinado grupo.

Referências

BOSI, Ecléa. “Estudos  Avançados – 2003”. Disponível em http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142003000100012
Ministério de educação - Curso de Espcialização em Ensino de Sociologia para o Ensino Médio – 1. Diversos Autores. Paginas 13 á 42.
NORA, Pierre. "Entre memória e história. A problemática dos lugares". Prog. História, São Paulo, PUC-SP, (10): 7-29, 1993.
POLLAK, Michael. “Memória, Esquecimento, Silêncio”. Disponível em www.uel.br/cch/cdph/arqtxt/Memoria_esquecimento_silencio.pdf
OLIVEIRA, Valeska Fortes de. “Educação, Memória e Histórias de vida: usos da história oral”. Disponível em: http://revista.historiaoral.org.br/index.php?journal=rho&page=article&op=view&path[]=118&path[]=114

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