Memória Social, uma construção do
individuo para o coletivo.
Adson
Silva
Ao
considerarmos as memórias como fonte da história estamos levando em conta um
sentido específico de memória, o que exige uma reflexão sobre a sua natureza.
Se o conhecimento só nos pertence de forma contingente, as memórias são
indissoluvelmente nossas, fazem parte de nós e nos constituem. Estamos no
centro delas e só quando elas fazem conscientemente parte de nós podemos
partilhá-las com outros. A recordação, portanto, não se separa da consciência,
mantendo com ela uma via de mão dupla. As memórias dizem quem somos. Integram
nosso presente ao passado, tanto na perspectiva de que inventamos um passado
adequado ao presente, quanto o contrário.
Os
estudos sobre a constituição da memória social é uma assinatura geral de
investigação em diversos objetos do nosso passado, pelos mesmos que somos
moldados, e nas diversas áreas. As memórias como afirma Halbwachs, tem como
função primordial estreitar os laços entre os membros do grupo, a partir de sua
compreensão individual do passado, causando-lhes uma ilusão de imutabilidade,
cristalizando assim os valores dessas. Dentro de uma perspectiva de trabalho,
as memórias como coletivos do trabalho ao qual nos dedicamos das nossas
reminiscências da infância, da escola em que estudamos, de todas as práticas
vividas têm uma validade relativa, histórica, pois estas são construídas
socialmente. Esta é a mesma sociedade que determina em boa medida como devemos
desempenhar nossas funções e com que categorias vamos pensá-las, valendo tanto
para o indivíduo quanto para a coletividade, retomando o pensamento de
Halbwachs, num permanente processo de negociação.
A
premissa de que todos os grupos sociais desenvolvem uma memória do próprio
passado coletivo e que essa memoria é indissociável para o processo de
manutenção do sentimento de identidade, o que o permite identificar o grupo e
distingui-lo dos demais. Este grupo social que é uma entidade autônoma e
independente, mantem as suas memórias dentro de um conjunto de valoração
defendidas e que são comuns a todos.
Se
o que defendemos não estivesse ameaçado não haveria necessidade de construir
lugares de memória, de desnaturalizar o esquecimento. Este esquecimento que
surge de diversos fatores externos como bem exemplifica Pollak, quando relata o
mal do passado, no entanto, um esquecimento que constitui a memória e outro que
a silencia. Porém podemos usar o esquecimento de forma conveniente. Arrumamos a
memória de acordo com nossos sentimentos e crenças e realizamos um grande
investimento para esquecer parte das nossas vivências, talvez até maior do que
o esforço para mantê-las. Nesse sentido, esquecer é um ato político que não se
reduz à dimensão do Estado. A caracterização dessa luta entre a lembrança e o
esquecimento pode ser ilustrada por um medo, um aforismo nietszcheano, a
vergonha racial, o preconceito do gênero, vitimados pela maquina da opressão,
os navios negreiros, que denuncia não só a forma pela qual fazemos certas
escolhas, mas também o que está em jogo no ato de esquecer.
Utilizarmos
as nossas memorias como fonte, é nada mais que evidenciar o poder de
articulá-las, a possibilidade e porque não dizer o poder de comunicar-nos e de expressar de forma articulada em textos
as nossas memórias, dos fatos vividos, possibilita enxergar tais memorias com
olhar objetivo, diante ao sentimento do que foi vivido, do que experimentamos
ao vive-las, isto é, ganhamos acesso
mais facilmente a um aspecto das nossas memórias que é, sobretudo, social -
embora seja muito relativa a separação que fazemos entre o pessoal e o social. O
sentimento experienciado nos cotidianos nos remete as emoções que são tanto
pessoais quanto sociais e que fazem parte de um repertorio incontável que
envolve a tantos, logo o que era de cunho pessoal, no fundo é na verdade
social, pois envolve uma diversidade de pessoas pertencentes ao nosso grupo de
convivência e tantos outros frutos do imaginário. Afirma Pollak, que nossas
memorias são constituídas de elementos objetivos e subjetivos, dai poderíamos
simplesmente afirmar que neste momento as nossas memorias são puramente
subjetivas, estruturadas pela linguagem na qual a redigimos, pela formação
oriunda de uma longa trajetória de vida, pelo ensino, ideias assumidas no
coletivo e pela partilha de nossas experiências.
Trazer
a tona as nossas recordações é poder confeccionar representações de nós mesmos,
composta de fatos e fatores externos, estritamente ligado ao local, comunidade,
bairro em que a nossa historia de vida foi gestada, Ecléa Bosi afirma: “uma
historia de vida não foi feita para ser arquivada ou guardada em uma gaveta
como coisa, mas para transformar a cidade onde floresceu”. Não importado se
esta memória é oral, escrita, musicada, pintada, fotografada. Na maioria das
situações somos o que lembramos, dentro de um processo celetista e se
pudéssemos estudar os meios pelos quais selecionamos os fatos memoriais, de que
forma os organizamos e estruturamos nossas ideias, e como somos capazes de
transmiti-las, certamente desembocaríamos na existência de uma história das
diversas maneiras de proceder e acumularíamos o conhecimento histórico dos
movimentos que nelas existem.
A
memória pessoal é nada mais que uma faceta de uma memória mais ampla que
envolve a própria sociedade. Da mesma forma, toda sociedade tem uma memória e
toda memória é individual e social ao mesmo tempo, estas estão relacionadas há
um continuo e constante ciclo complexo de subjetivação, aglutinando neste ciclo
as sensações, imagens mentais altamente privadas e espontâneas até solenes
cerimonias públicas vividas intensamente. Estas ancoradas nos berços que nos
gestam e originam para o convívio social:
As lembranças se apoiam nas pedras da
cidade. Se o espaço, para Merleau Ponty, é capaz de exprimir a condição do ser
no mundo, a memória escolhe lugares privilegiados de onde retira sua seiva. Em
primeiro lugar, a casa materna; tal como aparece nas biografias, é o centro
geométrico do mundo e a cidade cresce a partir dela em todas as direções. Dela
partem as ruas, as calçadas onde se desenrolou nossa vida, o bairro. Sons que
voltam, sons que não voltam mais, pregões, cantilenas que recolhi e procurei
gravar em pauta musical. ( Eclá Bosi, 2003)
Sua
casa materna no convívio com os seus, sua rua, seu bairro, seu grupo social, em
seus diferenciados aspectos e objetos que manipulamos que nos recorda que somos
indivíduos e que nossas experiências tem seu caráter singular, esta presente
quando enfatizamos a nossa experiência social, pois como indivíduo não
construímos um mundo, não somos autônomos, passivos, inertes e obedientes a uma
caracterização de vontade social interiorizada.
As
escolas, celeiros da nossa pratica de educar também são "celeiros" de
memórias, espaços nos quais se tece parte da memória social. As anamneses do
espaço escolar, só são possíveis por nos proporcionar uma rotina e uma
perenidade no tempo. A importância desde espaço de construção e desenvolvimento
mesmo quando nos afronta nas subjetividades contemporâneas, representa desde a
nossa infância até o momento atual, como enfatiza Valeska de Oliveira, “quando
põem em evidencia as historias de vida e os registros significativos dos
desafios de conhecimentos com os quais se implicaram ao longo de sua trajetória
pessoal e profissional”.
Recordar
o espaço escolar é possibilitar por meio destas lembranças a construção de um
memorial, onde tudo o que esta entorno, o percurso de casa para a escola, as
inúmeras descobertas e manipulações, os perigos e as aventuras de super herói,
desafios e brincadeiras, vestimentas/uniformes que identificam meninos de
meninas, os calçados nos mais diversos tipos, mesmo sendo num estilo padrão,
reveladores das marcas da vida familiar, da dependência infantil e dos efeitos
de uma qualificação social. Os objetos da escola, os livros, cadeiras, carteiras,
boletins, todo material escolar, continuam até o presente momentos servindo
como depositários de vivências ricas de significado, animados por nossos
amores, estórias, toques, revividos pela interação entre pessoas e coisas,
agora apenas representada.
Uma
memória que se enraíza nos gestos de um local concreto e que se torna
emblemática quando é conferida à instituição que lhe dá suporte a transmissão
dos valores da nação, como afirma Pollak, ao mencionar sobre o enquadramento da
memoria (histórico e politico) tudo isto para melhor definir seu lugar
respectivo, que se alimenta do passado, de certa maneira dos fatos fornecidos
pela história, satisfazendo certas exigências de justificação. Quando se trata
de nosso cotidiano, tudo que se refere a este como lugares, objetos,
vestimentas, ganham seu reconhecimento e sentido essencial pleno, a partir da
interação com o meio, com o outro com o social, grupo, coletividade, do
comportamento e de seus valores.
Remete
a um tempo preciso que a lembrança nostálgica muitas vezes esgarça. É o sinal
de que se reconhece e pertence a certo grupo social e a uma determinada
geração. Neste sentido, a escola como lugar de memória é simultaneamente
material, simbólica e funcional. A materialidade só se consagra como local de
memória se possuir uma aura simbólica, o que apenas as instituições escolares
tradicionais na nossa sociedade parecem cultivar. Mesmo um manual escolar só se
configura como lugar de memória se for utilizado ritualmente. Logo, uma
condição fundamental na constituição dos lugares de memória é a intenção. A
escola representa apenas uma dimensão da multifacetada realidade social, local
no qual se exerce um dos ofícios impossíveis na apreciação de Freud: ensinar.
Em
suma, a memoria social pode ser encarada apenas como sendo determinada, regida
e coercivamente imposta por uma constelação de poderes que emana de nosso
passado. É sabido que as relações sociais do passado não muito distante se
encerrava sempre na relação do poderio, sinal de dualidade entre dominado e
dominador. A pós modernidade abrangendo o nosso período contemporâneo surge na
historia da memoria social, para evidenciar que somos e podemos pertencer a uma
multiplicidade de grupos e de
identidades, que de certo, as nossas memórias são constituídas e construídas de
forma dinâmica, conflitual, dialógica e seletiva, não se limitando á qualquer
moldagem imposta por exclusividades de um determinado grupo.
Referências
BOSI, Ecléa. “Estudos Avançados – 2003”. Disponível em http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142003000100012
Ministério
de educação - Curso de Espcialização em Ensino de Sociologia para o Ensino
Médio – 1. Diversos Autores. Paginas 13 á 42.
NORA,
Pierre. "Entre memória e história. A problemática dos lugares". Prog.
História, São Paulo, PUC-SP, (10): 7-29, 1993.
POLLAK, Michael. “Memória,
Esquecimento, Silêncio”. Disponível em www.uel.br/cch/cdph/arqtxt/Memoria_esquecimento_silencio.pdf
OLIVEIRA, Valeska Fortes de.
“Educação, Memória e Histórias de vida: usos da história oral”. Disponível em: http://revista.historiaoral.org.br/index.php?journal=rho&page=article&op=view&path[]=118&path[]=114

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