Um corpo
homoafetivo
Compreensão a
partir de uma visão bíblica
Adson Silva [1]
Resumo: O presente texto
trata-se da inquietação de corresponder com o entendimento a cerca da dimensão
da doutrina do corpo numa visão bíblica do homossexualismo. Debater sobre
questões que são ocultadas pela sociedade são de grande importância para se
começar a perceber os problemas de determinados grupos e tratar de questão
preponderante à qualidade de vida em aspectos gerais. O presente ensaio
apresenta algumas considerações teóricas, bíblicas sobre o comportamento destes
indivíduos envolvidos nesta temática, relacionados ao contexto de vida
político, cultural e social. Oportunamente, apresenta aspectos e passagens
bíblicas que buscam esclarecer questões preponderantes ao gênero, escolha,
homossexual. Finalizando, apresento uma poesia de José Régio, como retrato
deste processo de des-construção identitária, necessária a todo ser que se
lança no árduo trajeto de descoberta do novo.
Unitermos: Bíblia, Corpo,
Gênero, Homossexualidade, Sociedade.
Esse artigo
nasce de fortes momentos de inquietação, questionamentos, construções,
desconstruções, negações e possíveis afirmações. Num processo intrínseco de me
permitir desvendar os véus do templo, desnudar o que realmente era e sou,
éramos e somos.
A psicologia me
aponta que sou uma dualidade real de amor e ódio, o bem e o mal coabitando num
mesmo espaço corporal, já a filosofia que sou um ser incompleto, que somente
será inteiro no relacionamento com outro, dotado de bens sensíveis e
irascíveis. Teologicamente sou matéria, sou corpo dotado de alma, oriundo da
terra, que para ela voltarei, o corpo não é um fim em si mesmo, mas um meio
para nos expressarmos. Um ser homo,
sexuado, afetivo.
Um corpo que há
tempos foi entendido como prisão da alma, envoltos numa penumbra, corpos
letárgicos e imóveis. Recordo-me de Platão no seu mito cavernal, prisioneiros
que desde o nascimento são acorrentados no interior de uma caverna de modo que
olhem somente para uma parede iluminada por uma fogueira. Essa, por sua vez
ilumina um palco onde estátuas dos seres como homem, planta, animais etc. são
manipuladas, como que representando o cotidiano desses seres. Uma única imagem
se vê, nome é dado a ela, natural do ser humano, uns se gabam, outros se vangloriam,
no imenso torneio da vida.
Um dos
prisioneiros é forçado a sair das amarras e vasculhar o interior da caverna.
Ele veria que o que permitia a visão era a fogueira e que na verdade, os seres
reais eram as estátuas e não as sombras. Perceberia que passou a vida inteira
julgando apenas sombras e ilusões, desconhecendo a verdade, isto é, estando
afastado da verdadeira realidade. “Que sociedade mesquinha, medíocre aquela que
não permite os seus membros alçarem vôo da descoberta, do conhecimento”.
Uma sociedade que impede os seus membros – crianças e adultos – possam
desenvolver ao máximo as suas capacidades em virtude do seu meio ou cultura de
origem, ou que lhes negam plenos direitos de cidadania em razão do seu local de
nascimento, não é uma sociedade viável, pois está fixada no passado e
esquece-se do futuro. É imperioso repensar o papel da Sociedade, do Estado e
das instituições educativas e a ação dos educadores e dos professores neste
contexto econômico, social e político mais complexo, marcado por desigualdades
e exclusões dos mais variados tipos, nomeadamente as que se realacionam com a
identidade e a diversidade. (THÜRLLER, 2012).
Imaginemos ainda
que esse mesmo prisioneiro fosse arrastado para fora da caverna. Ao sair, a luz
do sol ofuscaria sua visão imediatamente e só depois de muito habituar-se à
nova realidade, poderia voltar a enxergar as maravilhas dos seres fora da
caverna. Não demoraria a perceber que aqueles seres tinham mais qualidades do
que as sombras e as estátuas, sendo, portanto, mais reais. Significa dizer que
ele poderia contemplar a verdadeira realidade, os seres como são em si mesmos.
Não teria dificuldades em perceber que o Sol é a fonte da luz que o faz ver o
real, bem como é desta fonte que provém toda existência, todo ser, todo gênero,
do tempo, do calor, do aquecimento dos corpos.
Maravilhado com
esse novo mundo e com o conhecimento, com a descoberta de si, de ser que então
passara a ter, na realidade, lembrar-se-ia de seus antigos amigos, sentiria
pena deles, da escuridão em que estavam envoltos e anuncia a liberdade. No
entanto, prisioneiros não conseguem vislumbrar senão a realidade que
presenciam, debocham, faz escárnio do liberto, dizendo-lhe loucura e que se não
parasse com suas maluquices acabariam por matá-lo.
Os prisioneiros?
A sociedade? Somos nós que, segundo nossas tradições diferentes, hábitos
diferentes, culturas diferentes, estamos acostumados com as noções sem que
delas reflitamos para fazer juízos corretos, mas apenas acreditamos e usamos
como nos foi transmitido. A caverna é o mundo ao nosso redor, físico, sensível
em que as imagens prevalecem sobre os conceitos, formando em nós opiniões por
vezes errôneas e equivocadas, (pré-conceitos, pré-juízos). Quando começamos a
descobrir a verdade, temos dificuldade para entender e apanhar o real.
Amor e sexo,
gênero e ser, homo e sexus, tomo posse das palavras de Rita Lee, Roberto de
Carvalho e Arnaldo Jabor, na poesia-canção que diz: “é um livro, é esporte, é
escolha, é sorte... É pensamento, teorema, novela, cinema. Imaginação,
fantasia, prosa, poesia, nos torna patéticos, numa selva de epiléticos... É
cristão, pagão, latifúndio, invasão. Amor é divino, Sexo é animal. Bossa nova,
carnaval. É para sempre, também, do bom e do bem, amizade e vontade, antes e
depois. Amor é isso, sexo é aquilo, coisa e tal, tal e coisa... Ai o amor! Hum!
O sexo!!! O gênero no corpo, liberto da penumbra do preconceito, sendo homo,
sendo sexus, sendo SER.
Os corpos possuem uma linguagem específica que, como outras
fontes, precisa ser interpretada. Os corpos são esculpidos a partir de suas
experiências. Não é uma tarefa fácil entender a linguagem do corpo, linguagem
ambígua e permeada por relações de poder. Não é possível falar em experiência
masculina fora do corpo. A força desta afirmação é dada pelo contexto da
dualidade entre corpo e alma.
Os corpos masculinos são treinados para não sentir dor, ou
melhor, para não demonstrar a dor que deveras sentem. Não é possível
continuarmos pensando que os homens são seres insensíveis. O isolamento e a
solidão a que são submetidos forma sua identidade e molda seus corpos para que
sofram calados. O desafio que se apresenta é a valorização da corporeidade
masculina sem a necessidade de manter a dicotomia corpo vs. espírito, sexo vs.
amor, homossexualidade vs. heterossexualidade, felicidade vs. padrão social.
A valorização do sexo constitui
um dispositivo ideológico que sustenta as pretensões de acesso exclusivo ao
poder religioso e social por parte dos homens. Está em contradição com a kenosis (O termo "kenosis" vem da
palavra grega para a doutrina do auto-esvaziamento de Cristo em sua encarnação.
A kenosis foi uma auto-renúncia, não um esvaziamento de sua divindade e nem uma
troca de divindade pela humanidade) efetuada
por Cristo, descrita por Paulo na Carta aos Filipenses 2,7: ele se esvaziou de
sua condição de divindade para assumir um corpo como o nosso, a fim de sentir o
que sentimos e sofrer o que sofremos.
Tal esvaziamento que perpassa
pela valorização da corporeidade, dimensão do corpo, em sua relação, mesmo que
dicotômica, mas que em si precisa ser reconhecida e valorizada. Cristo sendo
Deus se submete a realidade de homem, fazendo valer a doutrina do corpo como
ponto de partida para vencer as dificuldades da vida, que em seu tempo denominava-se
a tentação demoníaca do pecado, as tentações da carne, e que hoje se pode
traduzir pelo preconceito de não aceitar este corpo como principio desta
relação com o outro, não importando quem seja este outro.
Somos seres de diversidade,
imprescindível, consciente da nossa existência, do sexo, do gênero, processo de
construção sócio-histórica, da masculinidade, da homoafetividade, das
experiências de vida ponto de partida, muito rica, que deve ser valorizada e
criticada simultaneamente, preservando a beleza de ser o SER HUMANO.
Estar apto a reconhecer a multiplicidade humana,
a aceitá-la como possível e a considerar que esses sujeitos devam ter os mesmos
tratamentos e direitos concedidos a qualquer outro cidadão e cidadã, parece ser
um exercício, cognitivo e político, que se processa de modo desigual nas
pessoas – e em consequência nos países, nas leis,
na vida em sociedade. (FURLANI)
Vivemos tempos em que a identidade é vista de forma unilateral,
onde a dominação identifica a experiência masculina, puramente relações de dominação. Para
alguém ser considerado homem, é importante que apresente símbolos dessa
virilidade. Esses símbolos deve ser auto-evidentes, pois “ser homem, no sentido
de vir, implica um dever-ser, uma virtus, que se impõe sob a
forma do “é evidente por si mesma’, sem discussão”. Existe sempre o perigo do
questionamento da virilidade, entendida de forma relacional. A violência é
utilizada como prova de virilidade, porque ela é uma realidade na biografia
masculina: desde criança, as brincadeiras e jogos masculinos estão permeados
por ela.
O sentido de identidade se inscreve numa tensão e numa homologia
entre o indivíduo e
o grupo, entre as necessidades internas e as influências sociais, entre
singularidade e pluralidade. Dentro deste contexto de tensão a construção desta
identidade passa inicialmente pela via da desconstrução, pois o ser somente é
num termo social, onde a verdade se fragiliza, se contradiz se abre a
possibilidade da diversidade:
Desconstruir é caracterizar o modo
pelo qual um texto pode ser lido e explicitado em suas contradições, desfazendo
as fronteiras entre suas oposições, “subvertendo a ordem e os valores
hierárquicos tradicionais contidos nelas”.
Desconstruir é fragilizar uma
“verdade” e predispor a mente a considerar outras possibilidades. (FURLANI)
Compreender e apreender o entendimento de “normal”, de possível,
de “natural”, a partir dos sujeitos que são representados positivamente no
contexto social. “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça...” (Mt, 11,15).
Considerações sobre a
Homossexualidade
Originariamente, o termo homossexualidade apareceu pela
primeira vez em um panfleto alemão de autoria anônima, publicado em 1869, o
qual se opunha a uma lei prussiana de anti-sodomia. No mesmo ano, o termo
homossexualidade foi utilizado por um médico húngaro que defendia sua
legalização. Este termo detinha uma conotação científica que permitia se falar
do fenômeno de maneira objetiva e sem um julgamento negativo. Para elencar os
homossexuais dentro da legalidade, sem juízos de valor, criou-se não apenas o
termo homossexualidade, mas também se definiu a heterossexualidade. Na última
década do século XIX, o termo homossexualidade apareceu pela primeira vez na
língua inglesa, num trabalho do tradutor Charles Gilbert Chaddock e, desde então,
tem sido amplamente utilizado na literatura contemporânea versando sobre o
tema.
Criaram-se, em seguida, outros termos para se discutir a
homossexualidade. Em primeiro lugar a homossexualidade foi definida como
preferência sexual a fim de rebater a psiquiatria tradicional que a considerava
como uma perversão, ou, genericamente falando, um “desvio”. Quando os
militantes homossexuais tentaram provar a natureza genética de seu
comportamento, passaram a falar em orientação sexual. Também se utilizou outro
termo como “modo de vida alternativo”.
Hoje, o termo “orientação sexual” determina vários
significados diferentes e, segundo os estudiosos que detém uma visão positiva
sobre o termo, existem três orientações sexuais, todas as três normais,
naturais e fixas em adultos (isto é, imutáveis):
- heterossexual – o indivíduo que se sente sexualmente
atraído por pessoas do sexo oposto;
- homossexual – o indivíduo que se sente sexualmente
atraído por pessoas do mesmo sexo;
- bissexual – o indivíduo que se sente atraído tanto por
pessoas de ambos os sexos, não necessariamente no mesmo grau de intensidade.
A homossexualidade é definida como a preferência sexual por
indivíduos do mesmo sexo. Este conceito é um tanto vago, já que o termo
“preferência” pode conotar a tendência a escolher, optar, e hoje se reconhece
que a homossexualidade não é mais vista como opção, mas como uma orientação
sexual normal e definida na infância e, conforme estudos mais hipotéticos, até
mesmo genética.
Muitas pessoas têm a ideia pré-concebida de que a
humanidade toda é heterossexual e que uma minoria de indivíduos encontra-se
"viciada" num comportamento homossexual. Assim, acreditam que a
homossexualidade é, simplesmente, um comportamento anticonvencional que muitas
pessoas escolhem externar. Outros indivíduos acreditam que a homossexualidade é
uma das três orientações sexuais normais, ou seja, o indivíduo simplesmente é
não opta.
Como o grupo heterossexual é majoritário e elaborador das
leis de comportamento aprovado e reprovado, o subgrupo homossexual tende a ser
considerado como exogrupo e, muitas vezes ao longo da história da humanidade,
como exogrupo "bode expiatório" que vai pagar pelos
"pecados" da sexualidade como um todo.
A sexualidade humana é um fenômeno complexo. Entre a atração
forte e exclusiva de um homem por uma mulher, de um homem por outro homem, ou
de uma mulher por outra mulher, existe uma infinidade de sensações sexuais e
emocionais: o desejo, a excitação ou mesmo a frieza em qualquer relacionamento
humano depende dos indivíduos inseridos em determinada situação, e não em
quaisquer das especificações arbitrárias que poderiam ser impostas através de
sociedade, tais como os rótulos que tentam definir se o indivíduo é
heterossexual ou homossexual. Assim, um bebê do sexo masculino não deve ser
rotulado como heterossexual apenas porque nasceu com esta definição sexual, mas
sim estar livre para que sua orientação sexual se desenvolva sem os freios da
sociedade.
Alguns homens desejam fazer sexo com outros homens e este
desejo é algo permanente em suas vidas. Alguns são meramente curiosos a
respeito de corpos masculinos, e podem experimentar, em algum momento de suas
vidas, um contato mais íntimo. Outros se sentem, igualmente, atraídos por
homens e mulheres. Para alguns, o prazer encontra-se simplesmente em admirar os
corpos de outros homens sem desejar o contato sexual. Há aqueles que preferem a
companhia de outros homens para o lazer, e muitos trabalham num ambiente
completamente masculino. Mulheres também sentem e vivem todas estas situações
com outras mulheres. Estas permutações infinitas e a confusão que resultam
delas nem sempre são absorvidas pela sociedade em que vivemos, a qual
necessidade de ordem para funcionar. E esta ordem, para os extremistas,
significa deixar de lado o incerto e procurar distinguir apenas o preto e o
branco. Significa "rotular", etiquetar as coisas. E desta forma
surgem às minorias, os excluídos, aqueles que não merecem nada mais do que um
olhar de reprovação ou mesmo desprezo.
Até o início dos anos 70, a grande maioria dos psiquiatras
estava ainda convencida de que a homossexualidade era uma doença mental. Alguns
acreditavam que ela poderia ter causas físicas, como é o caso de inúmeras
doenças mentais. Mas a maioria acreditava que sua origem estava, geralmente,
num desvio da orientação sexual provocada por uma perturbação do
desenvolvimento psico-sexual. Os psicanalistas, mais precisamente, sempre
admitiam que a homossexualidade estava ligada à uma carência no processo de
identificação durante a infância. Em outras palavras, o adulto homossexual
teria sido uma criança que não conseguiu encontrar sua autonomia e definir sua
identidade sexual em relação aos pais.
Os homossexuais acusavam a Psiquiatria de ser um
instrumento da opressão da qual eram vítimas, declarando serem os psiquiatras
seus inimigos mais perigosos na sociedade contemporânea, proclamando ideias
preconceituosas e repressivas, uma acusação que teve grande repercussão.
Em 1973, grande pressão é feita pelos homossexuais sobre a
Associação Americana de Psiquiatria para que ela suprimisse a homossexualidade
do rol de doenças mentais, propondo chamá-la, a partir de então, de “uma forma
natural de desenvolvimento sexual”. A entidade, diante de tanta repercussão
negativa, acabou reconhecendo o erro de catalogar a homossexualidade como
doença e removeu-a de seu Manual de Diagnóstico e Estatística de Desordens
Psiquiátricas. A Associação Americana de Psicologia, por sua vez, terminou por
declarar que a homossexualidade não era uma patologia em 1975.
Finalmente, em 1° de janeiro de 1993, a Organização Mundial
da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade de sua lista de doenças mentais, uma
grande vitória contra as ideias pré-concebidas, mas não propriamente contra o
preconceito, que existe em função da crença que os homossexuais detêm uma opção
de escolha e que só é homossexual quem quer. A decisão se baseou,
principalmente, no fato de que não foi provada qualquer diferença existente
entre a saúde mental de um indivíduo heterossexual e a saúde mental de um
homossexual. Porém, ainda prevalece o estigma social que liga a
homossexualidade à doença. O que falta, neste sentido, é um pouco mais de
informação por parte da pessoa que pensa desta forma.
Várias tentativas foram feitas neste século no sentido de
"explicar" a homossexualidade, e até mesmo "curá-la". Mas a
pergunta realmente não é por que algumas pessoas são homossexuais, mas por que
nossa sociedade se considera heterossexual. Pessoas nascidas em uma sociedade
homossexual geralmente obedecem às mesmas leis e preceitos que seguem pessoas
nascidas em uma sociedade heterossexual. A maioria das pessoas se sente
confortável com as condições que a sociedade impõe. Mas há aqueles que se
sentem oprimidos e vivem uma experiência de vida completamente "anti-natural".
Assim, o problema não está nestas pessoas, mas nas restrições impiedosas que a
sociedade impõe e que deveriam ser consideradas como atentatórias à natureza
humana.
Existem dois
entendimentos sobre a Orientação Sexual humana, ambas distintas:
A primeira e aceita, principalmente, pelos extremistas
religiosos, afirma que a orientação é uma decisão tomada pelo indivíduo durante
a puberdade e que pode ser mudada a qualquer tempo através de oração e
aconselhamento. Segundo eles o comportamento homossexual é passível de se
tornar um vício e abandoná-lo, muitas vezes, tornam-se muito difícil.
Esta noção é falha, pois se existem inúmeros homossexuais
que não aceitam sua orientação por terem incutido dentro de si o medo de um
castigo divino e sofrendo por causa desta condição, seria um absurdo dizer que
permanecem neste estado de sofrimento por mera opção. A partir do momento em
que o indivíduo se aceita e percebe que a homossexualidade faz parte de sua
natureza, este sofrimento íntimo acaba. O que não acaba é a dor da rejeição que
ocorre muitas vezes, mas então não se torna mais um problema de auto-aceitação,
mas um problema externo, com as pessoas à sua volta.
A segunda noção diz que a orientação é fixada já no início
da vida, pelo menos até que a criança atinja a idade escolar. Em muitos casos,
acontece antes do nascimento, talvez mesmo na concepção. Para os que seguem
esta noção, a orientação sexual está fora do controle da pessoa ou da educação
dos pais.
Muitos que acreditam ser a orientação sexual definida por
mera escolha pessoal, afirmam que a homossexualidade é uma doença, igual ao
alcoolismo. Mas isto parece muito improvável, pois a homossexualidade existe
sem uma causa externa e sem motivação dada por outras pessoas. Também alegam
que se trata de um comportamento negativo considerado como pecado. No meu
entendimento de pecado, acredito que este se configura sempre que cometemos um
ato que ofende o próximo e, por conseguinte, a Deus. Se um indivíduo é
homossexual como pode estar prejudicando seu próximo? O fato de alguém ser
homossexual não pode me prejudicar a não ser que eu tenha um tipo de neurose
mal resolvida e veja pecado em todas as direções que volte meu olhar. Ser
homossexual é uma questão que diz respeito ao próprio indivíduo e não aos
outros. Visto que o principio do Evangelho concerne no AMOR, na pregação deste
Amor, que não exclui ninguém, Deus não faz acepção de pessoas, este por sua vez
é inerente a pessoa humana, em Mateus 5,43-48, encontramos:
“Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e
poderás odiar teu inimigo”.·.
Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos
que vos odeiam, orai pelos que vos (maltratam e) perseguem.·.
Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele
faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os
justos e sobre os injustos.
Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis?
Não fazem assim os próprios publicanos?
Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de
extraordinário? Não fazem isto também os pagãos?
Uma vez que o próprio Deus afirma ser Ele o AMOR: Aquele
que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. (Iº João 4,8).
Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco.
Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele. (Iº João
4,16), sendo ele o Amor, Deus, Pai, como bom pai: “Há um só Deus e Pai de
todos, que atua acima de todos, por todos e em todos. (Efésios 4,6)”, jamais
desejará a infelicidade de seus filhos, pois mesmo sendo homossexual não deixou
de ser filho de Deus, membro de uma sociedade, ainda que injusta na garantia
dos direitos dos mesmos, mesmo estes sendo cumpridores dos deveres sociais.
Onde se encontra então o pecado em amar outra pessoa mesmo
que seja do mesmo sexo?
Se o principio da pregação do evangelho é o amor
incondicional, amar um outro homem, ser feliz e fazê-lo feliz, mesmo que isto
seja alheio ao padrão social, por livre escolha, ao contrario de contrair um
relacionamento com o sexo oposto, acarretado assim a infelicidade para si, para
o parceira(o), e quando gera-se uma outra vida para se manter o padrão
estrutural familiar-social-fotográfico, fazendo infeliz também este ser, seria
realmente vontade ou plano de Deus?
Se a homossexualidade é um erro, um pecado fico com a
prática do amor, que não exclui e não determina padrões de felicidade.
Homens de pouca fé! (Mateus 6, 30; 16,8)
Quem é merecedor da salvação?
Quem é detentor desta graça?
A esta sociedade de aplica: “Raça de víboras, maus como
sois, como podeis dizer coisas boas? Porque a boca fala do que lhe transborda
do coração. (Mateus 12,34)”
“Porque do mesmo modo que julgardes, sereis também vós
julgados e, com a medida com que tiverdes medido também vós sereis medidos.
(Mateus 7,2; Marcos 4,24; Lucas 6,38)”.
Acredito que se a homossexualidade fosse uma questão de
escolha pessoal, os indivíduos dentro desta orientação devem ser igualmente,
masoquistas por escolherem um modo de vida que os expõe diante de tanta
hostilidade, discriminação, perda e sofrimento. Ninguém “opta” ou “escolhe ser
rejeitado, discriminado e tratado com desprezo”.
“... a caridade, porém, supre todas as faltas. (Provérbios
10,12)”.
“Tudo o que fazeis, fazei-o na caridade. (Iº Coríntios
16,14)”.
Como os heterossexuais, os homossexuais
"percebem" sua sexualidade como um processo de amadurecimento
pessoal, não sendo "levados" a isso ou sequer "optando"
pela orientação sexual que aflora de seu íntimo. A única escolha presente na
vida dos homossexuais está em viver ou não suas vidas de forma transparente ou
aceitar os padrões rígidos exigidos pela sociedade que os obriga a uma vida
oculta.
Considerando que a homossexualidade não é uma doença ou
desordem mental e psicológica, não pode ser "curada", justamente pela
ausência de fator patológico, porém ainda existem pessoas que acreditam que a
medicina pode "libertar" homossexuais de seus desejos. O que se
evidencia, pelo contrário, são relatos de homossexuais que se diziam
"curados", mas que acabavam "recaindo no vício" (termo
utilizado pelos extremistas religiosos) homossexual. Não se trata de cura, mas
de uma forma de abafar uma realidade inegável e incontestável: homossexualidade
é orientação. Não é opção nem doença. Há relatos de grupos médicos que tentam
modificar a orientação sexual das pessoas através de terapia, mas ao invés de
ajudarem, correm o risco de causar sérios danos psíquicos nestes indivíduos,
incutindo-lhes culpas e desajustes. O que este indivíduo necessita é de amparo,
aconselhamento positivo, e não a negação de seu ser.
Modificar a orientação sexual de um indivíduo não quer
dizer apenas modificar seu comportamento sexual. Para tal, seria necessário
alterar os sentimentos e emoções da pessoa, sejam românticos ou sexuais, e
reestruturar o seu conceito próprio como pessoa e sua identidade social.
A Homossexualidade na Bíblia
A Bíblia, uma coleção de livros catalogados e considerados
como divinamente inspirados pelas três religiões abraâmicas (cristianismo,
islamismo e judaísmo), possui três principais passagens nas quais é
supostamente abordado, em contextos de idolatria, um ato homossexual masculino.
Com efeito, a Bíblia também chega a mencionar em Romanos
1,26 - quando fala dos rituais de idolatria dos romanos, sobre a relação para
physin ("incomum", "não usual" ou "contrária à
natureza") entre mulheres, o que poderia ser entendido como uma quarta
referência à homossexualidade. Entretanto, o texto não deixa claro se essas
relações são fora do comum por quaisquer razões que não fossem o sexo para fins
de procriação - sexo anal, sexo em pé etc. - ou se assim o seriam por se tratar
de sexo lésbico. Devido à ambiguidade do texto, não há como se afirmar com
certeza que a Bíblia faça menção ao sexo entre mulheres, ao contrário do ato
homossexual masculino, que é mencionado.
Não obstante, em especial com a expansão das pesquisas
exegéticas e hermenêuticas, não existe um consenso pleno sobre como exatamente
deveriam ser interpretadas essas passagens bíblicas. Lutero, em outubro de
1520, escreveu "A Liberdade de um Cristão", acrescido à frase significativa
"Eu não me submeto a leis ao interpretar a palavra de Deus". Isso
posteriormente acabou originando o direito fundamental de liberdade religiosa,
bem como a própria ideia de democracia.
Além da diversidade de posicionamentos por parte de
estudiosos, existem atualmente muitas denominações religiosas protestantes
históricas - como as Igreja Luterana e Anglicana e setores minoritários da
Igreja Batista, Metodista, entre outras, que, num processo revisionista, vêm
discordando das interpretações mais restritas comuns entre as doutrinas cristãs
mais influentes, de modo que elas aceitam membros que são assumidamente gays e
lésbicas, e algumas destas igrejas até os ordenam ao sacerdócio, como o famoso
caso de Gene Robinson que, mesmo gay assumido, foi eleito bispo da diocese
episcopal de New Hampshire na Igreja Episcopal dos Estados Unidos
Referências
a atos homossexuais
Existem três passagens da Bíblia que fazem referência a
atos homossexuais. As duas primeiras no Velho Testamento, no contexto da
purificação preconizada pela Lei Mosaica, a Torá. A terceira passagem se situa
no Novo Testamento quando o apóstolo Paulo descreve os rituais orgiásticos
idólatras dos gentios romanos:
Não te deitarás com
um homem, como se fosse mulher: isso é toevah (também no grego bdelygma, ambos
significam "impureza" ou "ofensa ritual"). (Levítico 18,22)
Se um homem dormir
com outro homem, como se fosse mulher, ambos cometerão "toevah (O termo
“abominação” (to’ebah ou toevah) é um termo religioso, usualmente utilizado
para condenar a idolatria e não propriamente um mal moral. De acordo com alguns
autores, o verso bíblico parece se referir ao templo de prostituição, uma
prática comum no Oriente Médio na época de Moisés. Qadesh se referia aos homens
que praticavam a prostituição religiosa como forma de idolatria, prática comum
entre os povos politeístas. A passagem está cercada por outras contra o
incesto, a bestialidade, o adultério e relações sexuais com mulher menstruada.
Entretanto, segundo os estudiosos, é o único verso desta passagem que utiliza o
termo religioso abominação)”. ( Levítico 20,13)
...visto que,
conhecendo a Deus, não lhe renderam nem a glória… pelo contrário… tornaram-se
estultos… trocaram a glória do Deus incorruptível por imagens que representam o
Deus corruptível, pássaros, quadrúpedes, répteis… por este motivo, Deus os
entregou a paixões infames: as suas mulheres mudaram o uso physiken (natural,
usual comum) em outro uso que é para physin (não natural, fora do comum,
inusitado). Do mesmo modo também os homens, deixando o uso physiken da mulher,
abrasaram-se em desejos, praticando uns com os outros o que é indecoroso e
recebendo em si mesmos a paga que era devida ao seu desregramento"
(Romanos 1,18-32)
Aqui Paulo preocupa-se especialmente com os incrédulos,
adeptos do paganismo. A perspectiva está enraizada no conceito de Deus como
santo e suas consequências lógicas: toda criação deve ser santa (em todo
Levitico, por exemplo, 11,45). Santidade significa inteireza, bem-estar e
integridade pessoal, ora esses pagãos escolheram o oposto. Substituíram o
próprio Deus por partes da criação, menosprezando assim a perfeição de Deus e a
inteireza.
Outra evidencia desse desvirtuamento encontra-se em sua
conduta sexual, com suas regras em Levitico 11-15, de inteireza, bem-estar e
santidade, o corpo humano é símbolo do corpo religioso social ou comunitário.
Essas regras buscam proteger os limites do corpo. Note-se o alto grau de
preocupação com orifícios o aberturas do corpo, normais (como boca, os órgãos
genitais) e incomuns (como a lepra = erupções de pele). Assim, as observações
de Paulo sobre relações “contra a natureza” devem ser entendidas no contexto de
sua preocupação com a ordem, a inteireza e a integridade física, que deve
refletir a ordem e a integridade da sociedade e do cosmo, vistas, claro, de uma
perspectiva judaica. Portanto, as palavras “natural” e “contra a natureza”
seriam melhor traduzidas por “aprovadas
culturalmente” e “desaprovada culturalmente”.
Em toda a Bíblia, a pessoa é vista em termos de três regiões
de atividade pessoal agrupada em torno de coração-olho, boca-ouvidos e
mãos-pés. Essas regiões descrevem e simbolizam a pessoa toda. Quando as três
regiões são mencionadas e não criticadas, tudo está bem. A pessoa é considerada
totalmente boa, integral, inteira. Mas quando alguma região é omitida ou
criticada, a pessoa é considerada incompleta, enferma, com falta de
integridade. No trecho (Romano 1,18-32), estão mencionadas todas as regiões:
cupidez = coração, olhos; homicídios = mãos, pés; difamadores = boca, ouvidos.
Mas a imagem toda é imperfeita, indesejável, corrupta, indicando que o ponto de
vista e o estilo de vida não judeus são total e inteiramente perversos,
fragmentados e incompletos. Não se aplicando em termos a questão homossexual,
apenas a conduta e princípios pagãos.
Além destas há uma passagem na Primeira Epístola aos
Coríntios que gera controvérsias entre os religiosos e teólogos:
Não errais: nem os
impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem malakoi, nem arsenokoitai…
herdarão os reino de Deus" (Iº Coríntios 6, 9-10).
Esta passagem em que São Paulo, para alertá-los de seus
erros, lembra da lei judaica aos cristãos de Corinto, tem sido alvo de intensas
discussões quanto a sua tradução. As palavras malakoi e arsenokoitai ao longo
dos séculos têm sido traduzidas de forma bem distintas.
Quanto à palavra malakoi (que literalmente significa
"mole", "macio") já houve versões bíblicas que a traduziram
como "depravados", "pervertidos", "efeminados",
"efebos", "meninos prostitutos" e algumas versões modernas
chegaram até mesmo a falar em "homossexuais". Entretanto, até a
Reforma no século XVI e no Catolicismo no século XX, pensava-se que tal palavra
significasse "masturbadores". Sabe-se, porém, que para além de seu
sentido literal de "mole" ou "macio", tal termo, quando
usado para adjetivar pessoas, pode também ser entendido como "lasso",
"irrefreável", "devasso" ou mesmo "efeminado". E
é a partir dessa última tradução que se tem entendido por parte dos religiosos
tradicionais que, portanto, existiria no texto uma condenação aos homossexuais.
Segundo essa concepção um homem lasso, promíscuo e efeminado só poderia se
tratar de um homossexual.
Não obstante, há uma séria contra-argumentação a esse
entendimento. Uma grande, e hoje crescente, parte dos estudiosos tem
questionado essa interpretação, mostrando que a palavra malakoi, mesmo quando
traduzida como "efeminado" jamais pode ser entendida como uma
referência a homossexuais. Para tal intento, mostram que tal tradução é ambígua
uma vez que o termo "efeminado" filologicamente sempre significou,
para além de "pusilânime", também "mulherengo", e é esse o
sentido que a palavra original tinha nos tempos de Paulo - o que, de fato, é
coerente com outras passagens bíblicas que condenam os promíscuos e devassos,
como Apocalipse 21,8 e 22,15. Tais críticos lembram também que a palavra
"efeminado" só adquiriu conotação de "homossexual" na
Modernidade, de modo que inserir essa tradução nos escritos de Paulo seria um
gritante anacronismo e algo profundamente descabido. No intuito de comprovar
tal entendimento, acrescentam que até a era moderna, nunca, em nenhum texto, em
nenhuma época sequer a palavra malakoi significou "homossexual" ou
conceito semelhante, e desafiam a quem possa mostrar o contrário.
Já em relação à palavra arsenokoitai a controvérsia é ainda
maior. Uma vez que ela, em um intervalo de três séculos, somente aparece em
dois escritos de Paulo e, posteriormente nos Oráculos Proféticos (Sibylline
Oracles) e em mais nenhuma outra literatura na história - e em ambos dois casos
a palavra se encontra dentro de uma lista, de modo a seu significado não poder
ser alcançado a partir de um contexto - fica impossível determinar seu
significado literal. Há, porém, um certo consenso que esta palavra se trata de
um neologismo criado por Paulo, que teria juntado as palavras arsen, que
significa "homem" e koiten, que significa "cama". Vale
notar que para alguns religiosos - como os tradutores da NVI e da Bíblia da
Linguagem de Hoje - tal dado já seria suficiente para levá-los a crer que tal
palavra se referiria, sim, à "homossexual", uma vez que o pecado que
um homem pode fazer na cama seria, em seus pontos de vistas, quase certamente,
um ato homossexual. Tal entendimento - acusado de simplista e homofóbico pelos
liberais - com efeito, não pareceu não dar conta de desvendar a palavra em
questão para a maioria dos exegetas e acadêmicos.
Diante da impossibilidade de encontrar o significado
literal da palavra arsenokoitai, uma ampla gama de estudos acadêmicos foi feita
ao longo do século XX no intuito de compreender de fato o termo e evitar sua
tradução de modo precipitado e controverso. É, então, que pelo método
histórico-crítico pôde-se, enfim, compreender o que tem sido amplamente aceito
como o mais provável sentido do neologismo paulino.
Arsenokoitai remete ao conceito de prostituição cultual
muitíssimo comum no Antigo Testamento, quando meninos eram vendidos como
kadeshim, ou "prostitutos cultuais", para os templos pagãos, como os
de Dionísio, Baal e Diana, ou mesmo homens livres se faziam sacerdotes sexuais
para se dedicarem a esses templos de frequente idolatria orgiástica. A exatidão
dessa teoria se provaria uma vez que a Septuaginta, que eram as escrituras
sagradas que Paulo lia à sua época, usa os exatos mesmos termos que o apóstolo
usou em Levítico 18,22: Como homem (arsenos), não te deitarás (koiten), como
mulher… (Kai meta arsenos ou koimethese koiten…), e o texto se finaliza
afirmando que tal ato seria toevah, uma palavra que, como vimos, no hebraico é
sempre usada num contexto de ritual religioso, de impureza no sentido
religioso, o que é praticamente um consenso entre os hermenêutas
veterotestamentários.
Há fartas outras comprovações bíblicas que suportam essa
teoria de que Paulo quando fala em sua Carta aos Coríntios 6,9-10, ele esta a
afirmar que são os prostitutos cultuais que não herdarão o reino dos céus, da
mesma forma que o texto de Levítico o faz. A começar pela própria introdução do
texto da Lei Mosaica que se inicia (Levítico 18,3) mostrando que as proibições
do capítulo são proibições de práticas que os egípcios e canaanitas faziam por
"estatuto", o que deixa, assim, inquestionável que se tratam de
práticas de cunho religioso pagão. Vários outros textos como Deuteronômio
12,30, Iº Reis 14,23, Deuteronômio 23,4, 1º Reis 15,12-13, Deuteronômio 23,17,
Iº Reis 22,46 e IIº Reis 23:,7 fazem comprovar que Paulo, em Coríntios, em vez
de falar de homossexuais, apenas repete o claro mandamento bíblico de
condenação aos prostitutos cultuais.
Diversas ramificações cristãs entendem que os textos
condenam somente o sexo idolátrico, lascivo e promíscuo (entre pessoas do mesmo
sexo ou não). Essa interpretação é ratificada por importantes círculos
acadêmicos, especialmente na Europa e Canadá, e mesmo nos EUA, nos seus setores
mais liberais. Na América Latina, em especial no Brasil, somente a Igreja
Evangélica de Confissão Luterana e a Igreja Anglicana parecem adotar
posicionamentos similares. A Nova Bíblia Anotada Oxford, considerada uma das
mais relevantes academicamente do mundo, traz notas que validam a não
condenação dessas passagens aos homossexuais, também a Bíblia de Jerusalém,
umas das traduções mais respeitadas no mundo teológico, não aceita a tradução
desses textos como sendo referentes aos homossexuais. No entanto, alguns
religiosos levantam fortes críticas a essa teologia - também chamada de
Teologia Inclusiva - acusando-a de excessivamente liberal. Afirmam que, mesmo
que em se tratando de prostituição idólatra, as condenações de Paulo também
incluiriam os homossexuais de nosso tempo pois estes, ao adotarem o estilo de
vida gay, estariam optando por uma prática sexual caída, antinatural e aversa
aos valores divinos e, por isso, recairiam da mesma forma em uma forma também
de paganismo idólatra.
No início do ano de 2008, o pastor Philip Yancey,
considerado um dos maiores e mais influentes autores cristãos atuais, colunista
da famosa revista Christianity Today, deu uma polêmica entrevista à revista gay
americana Whosoever na qual afirma que os homossexuais que não são aceitos em
suas igrejas como eles são, deveriam deixá-las para se socorrerem em outros
grupos que os aceitem, pois "estas igrejas precisam de educação". Já
o arcebispo sul-africano Desmond Tutu, um dos mais importantes líderes anti-apartheid,
quando ganhou o Prêmio Nobel da Paz, em 1984, declarou também que o ódio contra
gays é tão condenável quanto o racismo. "Penalizar alguém por sua
orientação sexual é o mesmo que penalizar alguém por algo que a pessoa nada
pode fazer a respeito, como a cor da pele. Ao fazer isso, a Igreja persegue um
grupo que já é perseguido", disse. Leonardo Boff, por sua vez disse que “é
fundamental reconhecer a criação do amor de Deus e dizer que onde há amor entre
casais, ou entre homossexuais, seja mulher ou homem, onde há amor há ato de
Deus, porque Deus é amor”.
Queda de Sodoma e Gomorra
Muitos religiosos, especialmente os tidos como
conservadores, e também o senso-comum associam a queda de Sodoma e Gomorra com
a prática de relações homossexuais, o que teria feito com que as cidades fossem
destruídas. No entanto, estudiosos mostram que o pecado cometido teria sido o
da falta de hospitalidade com os estrangeiros, e a intenção de estupro dos
visitantes, já que o termo conhecer, fundamental para o entendimento de tal
trecho, significaria ali claramente um abuso sexual, e em nada se vincularia a
um relacionamento homoafetivo, mas sim ao abuso e à violência.
Segundo o relato bíblico, os habitantes dessa terra seriam
cananeus (Gênesis 10,19). O território antes do cataclismo, era paradisíaco.
Ocupava uma área aproximadamente circular no vale inferior do Mar Morto
(chamada de Distrito ou Bacia, do hebr. Kik.kár).(Gênesis 13,10)
Após o retorno de Abrão (Abraão) do Egito, menciona que
"eram maus os homens de Sodoma, e grandes pecadores contra YHVH (traduzido
comumente como SENHOR)” (Gênesis 13,13). Mas isso não chegou a impedir uma
tolerância entre os habitantes de Sodoma (cidade-estado) com o patriarca Abrão,
e com o seu sobrinho, Ló (Gênesis 13.14).
Dois anjos de Deus, materializados, teriam dito a Abrão que
"o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e porquanto o seu
pecado se tem agravado muito." Abrão intercede 3 vezes pelos sodomitas. A
resposta final é: "Se houver em Sodoma 10 pessoas justas, não será destruída".(Gênesis
18, 20-23) Qual era o pecado grave dos Sodomitas?
Esses dois anjos entram na cidade, que fica em uma região
desértica, para pedir abrigo e proteção. Ló se apiedou desses viajantes e os
hospedou em sua casa, porém, sem conhecer a real identidade angelical destes
(Gênesis 19,1-3). Antes de se deitarem, os homens da cidade, descontentes com o
fato de Ló, que também era um homem de fora, ter trazido dois outros estranhos
para a cidade, cercaram então sua casa, desde rapaz até o velho, todo o povo
numa só turba, exigindo que Ló pusessem os visitantes para fora de sua casa
para que fossem estuprados, (Gênesis 19,4-5) o que era uma prática frequente na
Antiguidade, quando prisioneiros, guerreiros, ou exércitos vencidos eram
comumente violentados sexualmente como forma de desonra, humilhação ou castigo.
Ló roga para que os homens não fizessem esse mal ao seus visitantes, mas a
turba, ainda mais irada com ele, o ataca dizendo que faria, então, a Ló ainda
mais maldades do que com os visitantes. O texto então termina afirmando que os
anjos protegeram, ao fim, a Ló e a sua família e, em seguida, toda a cidade
teria sido destruída por Deus com fogo e enxofre.
Há atualmente teólogos e acadêmicos que afirmam que esta
passagem do livro de Gênesis não se refere à homossexualidade, mas ao abuso, ao
desamor e a falta de piedade. A Bíblia Anotada New Oxford afirma: "…a
questão principal aqui é a hospitalidade aos visitantes divinos. Nesta passagem
a sacralidade da hospitalidade é ameaçada pelos homens da cidade que queriam
violentar os hóspedes. O ponto principal desta passagem parece ser a ameaça que
os habitantes representam ao valor da hospitalidade. Esta é tão valorizada
neste contexto, a ponto de neutralizar a negatividade da atitude de Ló ao
oferecer suas filhas em lugar de seus hóspedes o que, hoje, seria uma atitude
impensável e repugnante a qualquer leitor". Segundo hermenêutas, a
história de Sodoma e Gomorra faz, assim, uma alusão profética à vinda de Cristo
que, assim como os anjos, é o enviado de Deus a terra e seria acolhido pelos
homens justos, mas também seria recebido cruelmente pelos homens sem piedade e
maus que aviltariam e atacaram seu corpo, mas, ao fim, sua glória e justiça
prevaleceriam.
Porém, o entendimento laico comum da passagem é, não obstante,
que Sodoma e Gomorra teriam de fato sido destruídas porque os habitantes dessas
cidades seriam todos homossexuais. Essa concepção popular é fruto da filosofia
Tomista que, na Idade Média, pela primeira vez se referiu ao sexo entre homens
como "sodomia". Tal autor inclui a homossexualidade entre os pecados
contra naturam, junto com a masturbação e a relação sexual com animais. Para
Tomás esses pecados sexuais são mais graves do que os pecados secundum naturam,
embora estes se oponham gravemente à ordem da caridade, por exemplo: adultério,
violação, sedução. Isto porque, para Aquino, a ordem natural foi fixada por
Deus e sua violação constitui uma ofensa ao Criador, o que seria para ele mais
grave do que uma ofensa feita ao próximo (Suma Teológica, II-II, questão 154,
artigo 11, corpo). Tomás de Aquino chega
a colocar a prática da homossexualidade no mesmo plano de pecados torpíssimos,
como o de canibalismo.
A partir de então, a palavra "sodomia"
popularmente foi-se desvinculando de seu sentido filológico original e passou a
ser, em quase todo mundo, conotativa de homogenitalidade, ou então sexo anal,
seja este hétero ou homossexual. Muitos religiosos da Teologia Inclusiva
salientam, porém, que este entendimento seria homofóbico e conflitante com a
própria Bíblia que em todas as vezes que se refere novamente a Sodoma e Gomorra
e aos sues pecados (como em Ezequiel 16,49-50) não mencionaria nada referente à
homossexualidade - e mesmo a única menção à questão da sexualidade nessas
cidades (Judas 6-7), somente se condena a intenção de intercurso sexual entre
seres humanos e anjos, conforme também se fez em Gênesis 6, 1-2.4.
Portanto, não se pode afirmar que exista qualquer indicio
real e direto, de que o comportamento homossexual é condenado por Deus nas escrituras
bíblicas.
Referências
bíblicas de apoio à homossexualidade
Três secções da Bíblia são analisadas como podendo ter
contexto homossexual, no entanto são vistos pela maior parte dos cristão como
apenas textos referentes a grandes amizades. O que está em conformidade com as
tradicionais exegeses bíblicas que têm como doutrina principal o amor fraterno,
em que não há a prática do sexo.
Rute e Noemi
Noemi era viúva com dois filhos. Rute é a viúva de um dos
filhos de Noemi.
Disse, porém, Rute: Não me instes para que te abandone, e
deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que
pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus;
Onde quer que morreres morrerei eu, e ali serei sepultada. “Faça-me assim o
SENHOR, e outro tanto, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti.”
(Rute 1, 16-17. 2, 10-11).
O pensamento majoritário no cristianismo é que, vendo que
sendo Noemi velha, e, não tendo marido, iria sofrer muito naquela região
inóspita por volta do ano 1000 a.C., pois, ela não tinha mas quem a protegesse,
este que era o papel do homem em tal época, e por isso a passagem acima
indicaria apenas uma amizade muito forte entre Rute e Noemi, segundo a
interpretação de trechos anteriores:
Morreu Elimeleque,
marido de Noemi; e ficou ela com seus dois filhos,os quais casaram com mulheres
moabitas; era o nome de uma Orfa, e o nome da outra, Rute; e ficaram ali quase
dez anos. Morreram também ambos, Malom e Quiliom, ficando, assim, a mulher
desamparada de seus dois filhos e de seu marido. Então, se dispôs ela com as
suas noras e voltou da terra de Moabe, porquanto, nesta, ouviu que o Senhor se
lembrara do seu povo, dando-lhe pão. Saiu, pois, ela com suas duas noras do
lugar onde estivera; e, indo elas caminhando, de volta para a terra de Judá,
disse-lhes Noemi: Ide, voltai cada uma à casa de sua mãe; e o Senhor use
convosco de benevolência, como vós usastes com os que morreram e comigo. O
Senhor vos dê que sejais felizes, cada uma em casa de seu marido. E beijou-as.
Elas, porém, choraram em alta voz e lhe disseram: Não! Iremos contigo ao teu
povo. Porém Noemi disse: Voltai, minhas filhas! Por que iríeis comigo? Tenho eu
ainda no ventre filhos, para que vos sejam por maridos? Tornai, filhas minhas!
Ide-vos embora, porque sou velha demais para ter marido. Ainda quando eu
dissesse: tenho esperança ou ainda que esta noite tivesse marido e houvesse
filhos, esperá-los-íeis até que viessem a ser grandes? Abster-vos-íeis de
tomardes marido? Não, filhas minhas! Porque, por vossa causa, a mim me amarga o
ter o Senhor descarregado contra mim a sua mão. Então, de novo, choraram em voz
alta; Orfa, com um beijo, se despediu de sua sogra, porém Rute se apegou a ela.
(Rute 1,3 - 14)
De acordo com a posição majoritária cristã - que busca
negar a tese homoafetiva - essa parte comprovaria que elas não seriam
homossexuais, pois, a própria Noemi diz que, "seria amargoso" se
absterem de maridos. Em argumentação contrária, os liberais afirmam que
amargura em questão trata-se não da dureza de não possuir um homem para amar,
mas principalmente do preconceito e exclusão que ambas teriam sem o álibe e
proteção de um marido, o que as exporia à condição de mulheres solitárias. Os
conservadores lembram, porém, que em as várias citações do nome do Deus dos
israelenses como Senhor, mostravam Noemi uma amante da lei, assim, amaria os
mandamentos, inclusive os contrários ao sexo homossexual.
David e Jónatas
Jónatas era o filho do Rei Saúl e primeiro na linha de
sucessão. Mas Samuel indicou David para ser o próximo rei o que trouxe grande
preocupação a Saúl:
"a alma de Jónatas se ligou com a alma de David; e
Jónatas o amou, como à sua própria alma" (Iº Samuel 18,1)
"E Saul naquele dia o tomou, e não lhe permitiu que
voltasse para casa de seu pai. E Jônatas e Davi fizeram aliança; porque Jônatas
o amava como à sua própria alma. E Jônatas se despojou da capa que trazia sobre
si, e a deu a Davi, como também as suas vestes, até a sua espada, e o seu arco,
e o seu cinto." (Iº Samuel 18,2)
"E, indo-se o moço, levantou-se Davi do lado do sul, e
lançou-se sobre o seu rosto em terra, e inclinou-se três vezes; e beijaram-se
um ao outro, e choraram juntos, mas Davi chorou muito mais." (Iº Samuel
20,41)
"Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; quão amabilíssimo
me eras! Mais maravilhoso me era o teu amor do que o amor das mulheres."
(Iº Samuel 1,26)
A posição majoritária no cristianismo aponta todos esses
trechos como se referindo a apenas "amizades" muito fortes, a
despeito do texto falar literalmente em "amor" de um pelo outro,
sendo este sentimento relatado como ainda maior do que o tido pelas mulheres,
numa clara referência ao amor erótico. Busca-se, ao falar de amizade, negar o
embaraçoso e evidente conteúdo homoafetivo do relato bíblico onde os dois
personagens trocam juras de amor e fidelidade. Dessa forma tentam explicar os
hermeneutas conservadores:
1.
Jonatas tinha amado Davi, pois, sabia da sua
vocação para com Deus. Em outra passagem mostra-se a sua fidelidade com a
religião, e o amor declarado um pelo outro, em meio a beijos e lágrimas, seria
pela expectativa de que David viria a ser o grande rei que fora profetizado, ou
seja, amor à vitória e ao ápice de Israel.
2.
Beijar-se sempre teria sido um costume do
oriente-médio, que, não expressaria sexualidade de acordo com a aquela cultura.
3.
Davi, no caso, considerado segundo o coração de
Deus, estava se referindo que, o amor fraternal valeria mais que a paixão. No
caso, o "amor divino" é expresso através da amizade, e Jonatas, que
era fiel, tinha preferido Davi a seu Pai, pois, Davi tinha sido escolhido por
Deus, logo era mais justo em caráter. Desta forma o amor divino e a amizade
superariam a paixão.
Daniel e Aspenaz
Aspenaz era o chefe dos eunucos de Nabucodonosor, Rei da
Babilônia. Daniel era um dos eunucos (segundo algumas interpretações) com
ascendência da casa de Israel. (Fontes não precisas)
“Ora, Deus fez com
que Daniel achasse graça e misericórdia diante do chefe dos eunucos” (Daniel
1,9).
A interpretação desta frase não é consensual: a versão
inglesa de King James 1611, e na versão Webster 1833 (http://bibliaonline.com.br/web/dn/1)
em vez de "misericórdia" pode-se ler "amor carinhoso"
(tender Love) reforçando assim algo mais que uma relação hierárquica. Na versão
Basic English são usadas às palavras como "sentimentos de carinho e
compaixão" (kind feelings and pity). As palavras originais em hebraico
podem ser traduzidas para "misericórdia" ou "clemência" reforçando
este ponto de vista, assim como o fato de em mais nenhuma passagem Daniel
demonstrar tal afeto por outra pessoa. No entanto Daniel e Aspenaz sendo ambos
os eunucos nunca poderiam consumar este amor físico.
Por outro lado este texto aparece na sequência do pedido de
Daniel a Aspenaz de não comer a comida que lhe estava destinada, uma vez que
esta era oferecida aos ídolos da Babilônia. Perante este pedido, e mediante a
ordem do rei, Daniel conseguiu convencer Aspenaz uma vez que ganhou a confiança
deste pelo seu porte. A análise do texto em hebraico, assim como a tradução dos
setentas para o grego (septuaginta), apontam neste sentido.
Palavras
Finais
A
desconstrução como método da Educação Sexual que apresentei neste texto não
pretendeu destruir os saberes constituídos, mas fragilizá-los, perturbá-los
como “verdades únicas” e inquestionáveis. Os argumentos aqui apresentados se
propuseram, não apenas a duvidar da veracidade das narrativas bíblicas, mas a
colocá-las no mesmo status de qualquer outro conhecimento humano, construído em
relações de poder, alterado nos tempos históricos conforme a conveniência e,
portanto, passíveis de contestação.
Eu não
questiono a importância espiritual de muitas passagens bíblicas e do papel
social que as igrejas desempenham na sociedade contemporânea... Sem dúvida,
organizações religiosas, católicas e evangélicas, ao longo da história, têm
contribuído muito para a melhoria de vida das mulheres, dos negros e negras,
das populações indígenas, dos/a sem terra, das crianças, dos imigrantes, dos
deficientes físicos, dos pobres. (FURLANI)
Libertos
para agir no mundo, os homens do século XXI, podem enfrentar a vontade de poder
e experimentar a liberdade de ser o que escolheu para viver. Espero que o meu
objetivo de apresentar compreensões a cerca de verdades milenares, tenha
atingido o objetivo de possibilitar o inicio dum processo de desconstrução
identitária de verdades fragilizadas PRÉ, abrindo-se para novas possibilidades
predisponibilizadas à mente CONCEITUOSAS.
E como
muitos me encontro neste caminho, e nele quero um pouco mais permanecer, num
profundo contexto de silêncio, ausência e saudade, pois neste tempo, as belas obras são gestadas. Como diz o poeta
(agradeço ao mestre de Vidas Djalma Thürller, por me fazer desvendar esta
maravilha do tempo do meu nascimento, 1982): ““...Para eu derrubar os meus
obstáculos?... Amo os abismos, as torrentes, os desertos... Eu tenho a minha
Loucura! Ah, que ninguém me dê piedosas intenções. A minha vida é um vendaval
que se soltou. É uma onda que se alevantou. É um átomo a mais que se animou...
Sei que não vou por aí!:
"Vem
por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me
os braços, e seguros
De que
seria bom que eu os ouvisse
Quando me
dizem: "vem por aqui!"
Eu
olho-os com olhos lassos,
(Há, nos
olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo
os braços,
E nunca
vou por ali...
A minha
glória é esta:
Criar
desumanidades!
Não
acompanhar ninguém.
— Que eu
vivo com o mesmo sem-vontade
Com que
rasguei o ventre à minha mãe
Não, não
vou por aí! Só vou por onde
Levam-me
meus próprios passos...
Se ao que
busco saber nenhum de vós responde
Por que
me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro
escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar
aos ventos,
Como
farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por
aí...
Se vim ao
mundo, foi
Só para desflorar
florestas virgens,
E
desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais
que faço não vale nada.
Como,
pois, sereis vós
Que me
dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu
derrubar os meus obstáculos?...
Corre,
nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós
amais o que é fácil!
Eu amo o
Longe e a Miragem,
Amo os
abismos, as torrentes, os desertos...
Ide!
Tendes estradas,
Tendes
jardins, tendes canteiros,
Tendes
pátria, tendes tetos,
E tendes
regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho
a minha Loucura !
Levanto-a,
como um facho, a arder na noite escura,
E sinto
espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o
Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos
tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu,
que nunca principio nem acabo,
Nasci do
amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que
ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém
me peça definições!
Ninguém
me diga: "vem por aqui"!
A minha
vida é um vendaval que se soltou,
É uma
onda que se alevantou,
É um
átomo a mais que se animou...
Não sei
por onde vou,
Não sei
para onde vou
Sei que
não vou por aí! (RÉGIO, José. Cântico negro) . Disponível em: http://www.releituras.com/jregio_cantico.asp. Acessado em 08 de abril de 2012).
Referências:
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Artigos
FURLANI,
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Acesso em 25 de abril de 2012.
SOUZA,
Ezequiel de. Gênero e religião: masculinidades desde uma perspectiva
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SOUZA,
Ezequiel de. Masculinidade e Religião: Um olhar teológico. Disponível
em: http://www.fazendogenero.ufsc.br/9/resources/anais/1277910283_ARQUIVO_EzequieldeSouza_trabalho_completo.pdf.
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VITELLI, Celso. Interlocuções entre masculinidade, corpo
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Acessado em 20 de abril de 2012.
REVISTA DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE /
Associação Psicanalítica de Porto Alegre. A Masculinidade - n° 28, 2005.
- Porto Alegre: APPOA, 1995. Disponível em: http://www.appoa.com.br/uploads/arquivos/revistas/revista28-1.pdf.
Acessado em 20 de abril de 2012.

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