“(...)
Há mais de quarenta mil anos atrás, a arte negra já resplandecia
Mais
tarde a Etiópia milenar, sua cultura até o Egito estendia
Daí
o legendário mundo grego, a todo negro de ‘etíope’ chamou
Depois
vieram reinos suntuosos, de nível cultural superior
Que
hoje são lembranças de um passado, que a força da ambição exterminou
Em
toda a cultura nacional, na arte e até mesmo na ciência
O
modo africano de viver, exerceu grande influência
E
o negro brasileiro, apesar de tempos infelizes
Lutou,
viveu, morreu e se integrou, Sem abandonar suas raízes.”
(Ao
Povo em Forma de Arte, escrita em 1978, por Wilson Moreira e Nei Lopes, para a
Escola de Samba Quilombo, do Rio de Janeiro).
O
material descrito a seguir, tem toda sua base de constituição no artigo de
Joelson Alves Onofre filosofa pela UESC, no qual me detive em sintetizar para
auxiliar a compreensão do mesmo, sobre uma temática tão necessária, o pensar e
fazer um currículo escola que esteja voltado para atender ás necessidades da
comunidade negra, remanescente, negada ao longo dos tempos, e que hoje busca em
todas as lacunas da sociedade reafirmar sua identidade e evidenciar seu legado
ancestral.
“Se
a cultura não é um dado, uma herança que se transmite imutável de geração em
geração, é porque ela é uma produção histórica, isto é, uma construção que se
inscreve na história mais precisamente na história das relações dos grupos
sociais entre si. Para analisar um sistema cultural, é então necessário
analisar a situação sócio histórica que o produz como ele é. (Georges Balandier)
Dependendo
do lugar de onde estamos, das posições ideológicas que assumimos, podemos
influenciar e materializar um currículo que ora contemple os ditames e normas
das legislações educacionais, ora assuma e transpareça a vida dos educandos,
suas habilidades e competências. Paradigmas que auxiliem na compreensão do
currículo como conhecimento e como proposta de trabalho voltada para a
eliminação de qualquer tipo de discriminação por parte de educadores e
educandos nos espaços escolares.
A
metodologia utilizada na pesquisa que deu origem a este trabalho permitiu
adentrar num universo pouco explorado e suscitar novas indagações a partir da
proposta de compreender o preconceito racial na concepção das trabalhadoras
domésticas, fazendo uma intersecção com o currículo escolar e repensando a
educação de forma que contribua para a diminuição das discriminações em sala de
aula.
Acreditamos
que, a partir do entendimento de que o currículo pode ser um caminho para se
trabalhar questões sobre preconceito, discriminações, racismo, violência,
diversidade cultural, dentre outros, a educação tornar-se-á elemento
indispensável para o combate às desigualdades sociais e educacionais.
CURRÍCULO,
CONHECIMENTO E DIVERSIDADE CULTURAL.
O
currículo, pensado em toda a sua dinâmica, não se limita aos conhecimentos
relacionados às vivências do educando, mas introduz sempre conhecimentos novos
que, de certa forma, contribuem para a formação humana dos sujeitos.
Esses
instrumentos inviabilizam a formação de um currículo plural , baseado na
diversidade e nas diferenças, isto é, a cultura erudita, disponibilizada para
poucos, dita as regras e potencializa aquilo que poderíamos denominar de
“currículo imposto”, organizado e elaborado por especialistas, em gabinetes
fechados.
A
escola, enquanto espaço de descobertas, troca de experiências e aprendizados
diversos, necessita abrir-se para a realidade dos educandos e da comunidade. A
tendência é menosprezar a cultura e os saberes dos educandos das camadas
populares em benefício daqueles que detém os bens culturais. O currículo elaborado pelas escolas precisa
ser pensado coletivamente, em cada unidade escolar, visando enfrentar alguns
desafios que a diversidade cultural tem nos trazido.
A
partir da temática da diversidade, a escola é chamada a enfrentar o desafio da diferença
e do cruzamento de culturas. “A escola tem se configurado em uma ideologia e em
seus usos organizativos e pedagógicos, como um instrumento de homogeneização e
de assimilação à cultura dominante”.
Isso
exige revisão das práticas educativas que continuam priorizando a cultura
dominante nas salas de aula, com conteúdos que apresentam a visão de
determinados grupos sociais, inviabilizando a introdução de elementos da
cultura popular e de temas polêmicos que requerem uma reflexão mais aprofundada
como: o problema da fome, desemprego, racismo, preconceito, consumismo e tantos
outros.
O
poder de ocultação que o currículo exerce impossibilita que educandos possam
usufruir de aspectos de sua própria cultura e da cultura que rodeia a escola. A
falta de “representatividade” cultural do currículo escolar repercute,
imediatamente, na desigualdade de oportunidades e na incapacidade da cultura da
escola para dotar os alunos de instrumentos que os permitam compreender melhor
o mundo e a sociedade que os rodeia.
Lei
nº 10.639/03, contribuindo, assim, para a disseminação de conceitos e práticas
educativas que auxiliem no combate ao racismo e preconceito racial, ainda
sutilmente presentes na sociedade brasileira. A Lei nº 10. 639/03, em seu
artigo 1º, estabelece que: “Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio,
oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura
Afro-Brasileira” (BRASIL, 2003, p. 1). Esse aparato legal aponta para a
necessidade de discutir e reconhecer a história do povo negro, o papel
imprescindível que ela desempenha e valores civilizatórios que os negros.
NEGAÇÃO
DAS CULTURAS E SILENCIAMENTO NO CURRÍCULO.
Refletir
sobre a negação das culturas minoritárias e seu silenciamento no currículo
constitui-se uma maneira de contribuir para a concretização de uma educação
antirracista, pois, analisando sob esse prisma, outros olhares serão lançados
sobre o currículo, auxiliando no entendimento das complexas questões que brotam
do seu interior e da sua formulação.
Não
é bem assim que compreendemos essa questão tão complexa, pois o currículo deve
ser debatido, questionado, criticado no seu interior e avaliado em sua forma de
concepção, em articulação permanente com o tempo/espaço/lugar das práticas
sociais (realidade-ciência, cultura-tecnologia-realidade). A ação educativa, na
qual educandos e educadores são partícipes, deve propiciar aos mesmos uma
reconstrução reflexiva e crítica da realidade tendo como ponto de partida as
teorias, os conceitos, os valores, os costumes e, principalmente, uma atenção
especial aos conteúdos culturais.
“As
culturas ou vozes dos grupos sociais minoritários e/ou marginalizados que não
dispõem de estruturas importantes de poder costumam ser silenciadas, quando não
estereotipadas e deformadas, para anular suas possibilidades de reação”. Esses
e tantos outros temas relacionados aos demais grupos sociais que são negados no
currículo necessitam permear o trabalho do educador com o educando, na
tentativa de respeitar e valorizar cada cultura em suas especificidades.
A
escola precisa reconhecer que seu papel é o de contribuir para que os educandos
possam reconstruir a cultura que a sociedade insiste em apresentar como
“válida”. Para isso, precisam reivindicar o espaço negado à sua própria cultura
e reconhecê-la como um elemento indispensável para a construção de um currículo
que priorize todas as culturas, que não oculte aquelas que não se enquadrarem
nos padrões de culturas hegemônicas e etnocêntricas.
A
íntima ligação entre poder e representação permite que as narrativas, estórias,
concepções, categorias e culturas dos diferentes grupos sociais sejam
representadas no currículo de acordo com as relações de poder entre os grupos
sociais.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
As
considerações apresentadas neste artigo tiveram uma única preocupação:
apresentar o currículo como meio de discutir as relações raciais e de
desigualdades que permeiam o ambiente escolar.
O
compromisso com uma educação antirracista e inclusiva, no sentido do respeito e
acolhimento ao outro, com suas diferenças e limitações, passa pela
responsabilidade que cada ator social, seja ele educador, aluno ou gestor, deve
ter com a eliminação das atitudes discriminatórias existentes nas relações
interpessoais dentro da escola.
Neste
sentido, nossa análise teórica partiu da concepção de currículo e sua
influência positiva ou negativa na educação de nossas crianças, dos jovens e
dos adultos. A essas questões, nossa postura política, ética e comprometida com
a educação de qualidade dará a resposta.
REFERENCIAS
BRASIL.
Lei n. 10.639/03, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei no 9.394, de 20 de
dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional,
para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da
temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências.
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil/ LEIS/2003/L10.639.htm. Acesso em: 25 maio. 2015.
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